sábado, 3 de maio de 2008

O Veterano (Conto)

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Um franco-atirador aterroriza a cidade

O filho-da-puta pode correr o quanto quiser que eu não vou perder o rastro dele. É claro que, se eu houvesse parado de fumar, como prometi a mim mesmo uma centena de vezes neste último ano, eu não estaria quase morrendo, sem fôlego, arfando como um cachorro velho.
A neve que caiu durante a noite também não facilita nada. Uns cinco graus negativos? Talvez menos.
Vejo apenas um vulto adiante de mim, por entre as árvores, correndo contra o sol nascente. Ele não vai fugir! Nem tem como...

Acompanhei as notícias das primeiras mortes pelo jornal.
Algum maluco se entocava em telhados de prédios pela cidade e, quando menos se esperava, — BAM! — metia um tiro de fuzil nos miolos dum transeunte.
Nada sistemático: uma dona-de-casa, um pedreiro, um motorista de táxi, um mendigo e, da última vez, um médico, que teve a caixa craniana esfacelada pelo projétil .30-60 enquanto voltava do supermercado, trazia no colo a filhinha de dois anos.
Foi a esposa do finado quem me procurou, e a razão era muito simples: a polícia só trabalha mediante uma comissão. Não difere muito duma prática comum no judiciário, quem tem grana, recebe um tratamento melhor de quem não tem, o que favorece, quase sempre, quem está no lado errado da lei. Tatyana se assustou com o preço pedido pelos meganhas e refletiu — “se for para pagar esta fortuna para descobrir quem matou meu marido, prefiro eu mesma escolher aquele que acredito ser mais competente”.
Este pensamento a trouxe até mim, graças à reputação adquirida de que “eu matava a cobra e mostrava o pau”.
Geralmente não gosto de me envolver em assuntos policiais. Os tiras são mais bem preparados e possuem melhor equipamento para isto, mas a preguiça e a extorsão praticada era algo que me tirava do sério, além disto, a morte brutal do médico me deixou assustado. Fiquei pensando comigo mesmo — e se fosse minha namorada? Este maluco está circulando por aí, à luz do dia, rifle a tiracolo, e qualquer um pode ser o próximo alvo.
O envelopinho que Tatyana depositou sobre minha mesa também ajudou em minha decisão. Mas ela impôs uma condição:
— Quando você achar o desgraçado, detetive, não quero que o entregue à polícia. Na mesma hora, você me liga.
Nem titubeei, abri o envelope, contei a grana por alto e aceitei o serviço.

Reli os jornais empilhados no chão da cozinha e tentei traçar um paralelo entre todos os assassinatos.
Como imaginei, não havia nenhuma conexão óbvia, tirando o fato de que todos foram mortos ao entardecer, caminhavam pela rua e foram baleados na cabeça. Suspeitava-se que o disparo provinha dum fuzil de precisão M1903 Springfield, semelhante ao usado pelo exército.
Telefonei para Helen, um caso antigo, com quem não falava há alguns anos:
— Você é louco? Se meu marido souber que estou conversando contigo, ele mata nós dois!
— Preciso dum favor, Helen: uma lista com nomes e últimos endereços conhecidos de franco-atiradores do exército, afastados do serviço por distúrbios psiquiátricos — o tal marido da Helen era capitão do Exército, e algo me dizia que havia um milico por detrás daqueles disparos.
— Como é que eu faria isto? — ela se desesperou. Helen sempre ficava nervosa quando falava comigo, a promessa de casamento que fiz a ela e não cumpri havia abalado severamente nosso relacionamento.
— Sei que você é bastante criativa, moça. Você tem meu endereço, estarei aguardando por esta ajuda sua.
— Sinto sua falta, Vico... — a voz de Helen estava trêmula — Acabei de sair do banho, estou vestindo apenas uma camisola...
Bem, o resto do papo é assunto particular.

Tratei de visitar cada uma das cenas do crime e conversar com as pessoas — lojistas, transeuntes, residentes —, na expectativa de que alguém houvesse visto a cara do assassino. Mas nada: um havia ouvido o tiro, outro viu a cabeça da vítima explodindo, outro, apenas a correria dos pedestres desesperados.
O mendigo que havia sido vitimado costumava dormir numa praça do Centro. Na data da morte, ele conduzia um carrinho de supermercado — com seus pertences — até seu banco cativo, quando foi interceptado pelo disparo.
Naquela região, minhas investigações também estavam sendo infrutíferas, até que um sem-teto, fedendo a cachaça, me segurou pelo braço.
— Eu vi tudo, senhor...
— Viu? Então me conte — apanhei meu bloco de notas.
— O senhor não vai me oferecer nem um café? Está frio pra caralho hoje.
Paguei o maldito café ao mendigo e lhe prometi cinqüenta pratas se a informação fosse quente.
Ele apontou para um prédio e disse:
— O atirador estava lá, senhor, no telhado. Eu tinha visto um homem andando lá em cima, ele carregava algo, não pensei que fosse uma arma, então ele se agachou, mirou e atirou. Foi só um tiro, senhor, e acertou o Ferrugem. Poxa vida, o Ferrugem morava aqui na praça há quinze anos! — e havia lágrimas nos olhos do mendigo.
Já no telhado do edifício indicado, constatei que, se havia um ponto para o tiro perfeito, eu estava nele. De sobre o prédio, havia uma visão clara da praça, distante uns cem metros, apropriado para um disparo certeiro na cabeça.
Mas ninguém no prédio e arredores notou alguém diferente circulando por ali na data do crime.

Dois dias depois, recebi em casa um envelope pardo. Helen havia conseguido obter as informações que requisitei — os endereços de quinze veteranos afastados do serviço, desde desvios de conduta em serviço até problemas psiquiátricos mais graves.
Num mapa da cidade, aberto sobre a mesa da sala, marquei os locais dos crimes e os endereços dos meus suspeitos.
Ao redor do domicílio de Stephen Gardner, que havia servido como franco-atirador na Normandia, as mortes formavam um esclarecedor semicírculo. Ele seria o primeiro com quem eu tomaria um chazinho; se não fosse o Stephen, eu partiria para os outros suspeitos.

Bati à porta de Stephen Gardner.
— Quem é? — alguém, de dentro, perguntou.
— Vico, Detetive particular. Posso conversar com você?
Mas ninguém respondeu. Encostei o ouvido na porta e ouvi alguns ruídos. Aparentemente, a pessoa havia aberto a janela.
Lancei-me contra a porta e, na segunda ombrada, consegui arrebentar a tranca. Como imaginei, a janela estava aberta, o vento gelado inflando as cortinas.
Espiei para fora.
Estávamos no segundo andar, foi fácil para Stephen pular. Pude vê-lo correndo pelo beco abaixo, claudicando.
Refleti e cheguei à conclusão de que não valeria à pena pular atrás dele, eu apenas me arrebentaria. Desci as escadas, tentando alcançá-lo ainda no beco. Mas o avistei saltando para dentro duma caminhonete Ford. Quando estava quase alcançando a maçaneta do veículo, Stephen acelerou e desapareceu na primeira esquina.
Partindo duma lógica bem simples, de “quem deve, teme”, esta fuga quase confirmava minhas suspeitas sobre a culpa de Stephen. Voltei ao quarto dele e, no corredor, encontrei alguns moradores do prédio, assustados com o arrombamento.
— Tudo bem, sou da polícia — e lhes mostrei meu distintivo falso, que carrego justamente para acalmar esta estirpe de curiosos.
Entrei e encostei a porta. O quarto estava congelando até a alma, por causa da janela aberta. Fechei-a e passei a revirar a papelada sobre uma escrivaninha. Encontrei várias fotos, em quase todas, Stephen tinha um fuzil na mão. Havia também um diário, onde estava escrito, inúmeras vezes, centenas de vezes por página: “Você matará”.
Nas gavetas, muito lixo, mas algo importante, um pedaço de papel, com um mapa rabiscado e a inscrição:
Para chegar em Barranqueiras

O mapa indicava um caminho partindo do quilômetro trinta e dois da rodovia interestadual. Deveria ser alguma fazenda e, por algumas das fotos, deduzi que era algum tipo de acampamento de tiro, onde entusiastas podiam praticar tiro ao alvo, confraternizar e encher as caras longe das mulheres.
Como estava faminto, no caminho até a fazenda, parei num restaurante de beira de estrada e pedi um belo bife acebolado. Aproveitei e liguei para Tatyana, informando-a que, com grande grau de certeza, estávamos na cola do assassino do marido dela. Passei as indicações, mas recomendei que ela tivesse precaução. Não sabíamos como Stephen reagiria — provavelmente com agressividade —, nem quantas pessoas encontraríamos na fazenda. Se tivéssemos sorte, Stephen estaria sozinho. Por ser um dia de semana, eu contava com esta possibilidade.
Foi nesta hora que começou a nevar, primeiro alguns flocos, depois uma baita duma nevasca, que me proibiu de deixar o restaurante. Dirigir nestas condições era pedir para derrapar na estrada e sofrer algum acidente.
— Traga um café bem forte, pois a noite vai ser longa — pedi à garçonente, e fiquei ouvindo ao rádio até altas horas da madrugada, quando anunciaram que as estradas já estavam transitáveis.
Seguindo as orientações do mapa, embiquei na estrada de terra, agora um puro lodaçal de neve e lama. Meu carro encalhou algumas vezes e, num breu completo, iluminado apenas pelos faróis do automóvel, tive de desembarcar e tentar encontrar algum jeito de prosseguir. Perdi algumas horas neste curto trajeto até que, enfim, por volta dumas cinco da manhã, avistei um bangalô, luzes acesas, e diante dele o Ford.
Desliguei os faróis e, por ser uma ladeira, desci com o carro em ponto-morto, que deslizava pela camada de gelo. Estacionei, apanhei minha pistola no porta-luvas e me esgueirei até o casebre.
Adentrei o alpendre e espiei pela janela. Stephen estava sentado à mesa, abraçado ao fuzil, cabeça pendendo para frente, vencido pelo cansaço.
Tentei forçar a porta, mas seria impossível entrar sem despertá-lo. Talvez se eu conseguisse atraí-lo para fora, minhas chances seriam melhores e eu teria o elemento surpresa a meu favor.
Tatyana não o queria morto, pelo que me havia dito, por isto, dar um tiro na cabeça dele, deslealmente, como ele fazia com suas vítimas, estava fora de cogitação, mas se pelo menos eu o ferisse, já teria alguma vantagem. Mirei no braço, mas acabei optando pela perna, pois um pequeno desvio e poderia acertá-lo no coração.
Dei dois tiros através do vidro; um atingiu a perna de Stephen, na altura do joelho, mas o segundo atingiu a cadeira na qual ele estava. Por reflexo, anos de treinamento militar, Stephen buscou abrigo e retrucou com vários disparos contra a janela.
Afastei-me da casa e me escondi atrás da caminhonete.
O cano do rifle surgiu pelo buraco no vidro.
Ele não me veria, em meio à escuridão da noite, e, acostumado a caçador, Stephen não deveria estar confortável nesta posição inversa.
Ficamos em silêncio por vários minutos.
Stephen teria de tomar alguma atitude, ou sangraria até a morte dentro da casa.
Ele abriu uma fresta na porta.
— Stephen, gritei, sabemos que foi você quem matou aquelas pessoas! A polícia chegará a qualquer momento.
A resposta dele foi vários tiros, a esmo, em minha direção. Percebi que ele estava desestabilizado emocionalmente, ignorando qualquer noção estratégica. Isto se confirmou quando ele saiu correndo da casa, arrastando a perna por causa do ferimento e se embrenhou na mata.
Corri atrás, sempre me mantendo atrás de alguma árvore para me proteger dos eventuais disparos que ele efetuava. Atolávamos na neve até o meio da perna, ele com muito mais dificuldade para correr do que eu, exaurido por causa do frio, da noite sem dormir e desta corrida pelo mato.
Eu teria de esperar ele desistir; expor-me seria me arriscar a levar um tiro, engalfinhar-me fisicamente seria desvantajoso, pois um rapazola no auge da forma partiria um quarentão como eu em dois.
Após um tempo, nem mais corríamos, éramos apenas duas criaturas se arrastando pela neve; foi quando o sol começou a nascer.
Percebi que Stephen havia largado o rifle e, uns dez passos depois, desabou.
Aproximei-me dele e também me joguei de joelhos na neve. Ele parecia estar em choque.
Havíamos nos afastado muito do bangalô. Ao recuperar o fôlego, arrastei-o de volta. Eu estava quase congelando quando avistei o casebre. Só que, desta vez, além de meu carro e da caminhonete de Stephen, havia outros quatro carros estacionados.
Hesitei.
Na varanda, havia uma mulher, que reconheci sendo Tatyana. Ela fumava e, ao me ver, deu um grito, que atraiu para fora da casa várias pessoas. Todas vieram em minha direção e me auxiliaram a transportar o atirador para o interior.
— Estes são parentes das vítimas deste desgraçado, disse-me Tatyana.
Eles o reanimaram dando-lhe um pouco de brandy para beber, então o amarraram na cadeira e trouxeram uma mala, de onde cada um retirou um objeto. Nas mãos, navalhas, facas, serrotes, alicates. Tatyana tirou da bolsa um bisturi:
— Era de Felipe, meu querido... — ela esclareceu.
Eu já havia percebido o que se sucederia ali, mas, mesmo assim, perguntei:
— O que vocês vão fazer?
E, diante do olhar aterrorizado de Stephen, Tatyana respondeu:
— Ele nos causou uma dor muito maior do que podemos suportar; agora, vamos devolver um pouquinho desta dor para ele.
Quem era eu para tentar dissuadi-los? Dizer-lhes que isto era errado, quando eu, se estivesse na mesma situação, teria feito o mesmo, ou talvez pior?
Fitei uma última vez Stephen e saí, fechando a porta atrás de mim.
Embarquei no meu carro, guardei a pistola no porta-luvas e girei a chave na ignição, abafando, com o ronco do motor, os urros de agonia do atirador.