sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Aqualung - e-book gratuito (mojobook)

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Acabou de ser publicado e-book que escrevi para a Editora Mojo Books, inspirado no álbum Aqualung, da banda britânica Jethro Tull.

O enredo é a história da filha de um banqueiro em busca de sua própria liberdade e descobertas.

O e-book pode ser baixado gratuitamente no site da editora. Para isto, é necessário apenas realizar um rápido cadastro.

Aqualung
Baixe aqui

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Covil dos Inocentes - segunda edição

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Acabou de ser publicada a segunda edição do livro com a compilação do romance online "O Covil dos Inocentes" e alguns contos com o Detetive Vico, pela Oficina Editora.

Sinopse

Ao investigar a misteriosa morte duma antiga amante, Vico se envolve numa sangrenta guerra entre as máfias italiana e chinesa.

Com sua característica visão de mundo, Vico nos apresenta um panorama brutal, onde reina a lei do mais forte.

“A vida dum detetive é tão tediosa quanto a de qualquer outra pessoa; a única
diferença é que nosso ofício é descobrir a sujeira que os outros querem esconder.”

Para baixar o e-book gratuitamente
http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/582317

Para visualização online
http://en.calameo.com/read/0000022380cdd512c51dd

Para comprar o livro

U$ 11,99 + frete
http://www.lulu.com/content/1410358

sábado, 5 de julho de 2008

A Noite do Predador (conto)

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Um maníaco sexual faz mais uma vítima

Ele disse que esta noite iria me matar.

Não duvido desta promessa; os últimos dias me fizeram crer que ele é capaz de tudo.
Conheço-o desde os tempos de escola: era o esquisitão da turma. Sentava sozinho na primeira carteira do canto, quieto, sem amigos, cara cravejada de espinhas.

As meninas tiravam um sarro de mim, pois a paixão dele não era segredo. Mas eu nunca tive de me esquivar dele, Tenório não tinha coragem para me abordar e revelar seu amor. Melhor assim, eu pensava.

Reencontrei-o ano passado, quando, por aquelas mórbidas coincidências da vida, acabei me envolvendo num caso de agressão sexual. Um estuprador fazia suas vítimas na cidade e a polícia chegou a Tenório. Todas as evidências apontavam-no como suspeito.

A família dele foi atrás melhor advogada de defesa: eu.

Tenório ficou surpreso ao me ver, alegou inocência, suplicou por minha ajuda. Analisei os laudos técnicos e encontrei várias falhas na investigação. Obtivemos um habeas corpus para Tenório, que responderia às acusações em liberdade. A mim, pelo menos, ele havia convencido de sua inocência.

Então começaram os telefonemas de madrugada. Tenório chorava, implorava para que eu fosse encontrá-lo, dizia nunca ter deixado de me amar.

— O que você está vestindo? — ele interrogava nestas ligações — Eu estou pelado... Esperando você.

Eu desligava o telefone, assustada, acuada com a situação na qual havia me enrodilhado. Passei a não atender mais aos telefonemas inoportunos e pedi a um colega que assumisse o caso em defesa de Tenório, pois eu nem me julgava mais apta a representá-lo, tampouco continuava acreditando na inocência dele.

Não sei o que me levou a imaginar que estas medidas serviriam para acalmá-lo. A experiência que eu tinha com agressores sexuais deveria ter me ensinado que estes maníacos quase sempre vão às últimas conseqüências.

Passei a receber cartas em casa, bilhetes no trabalho e, mais de uma vez, avistei Tenório me seguindo.

— Pare com isto! — uma tarde, reagi, ao vê-lo diante do portão de casa. E tomei uma decisão, se no dia seguinte, ele ainda estivesse me assediando, eu contataria a polícia, aliás, era o que eu deveria ter feito desde o início.

Não o vi de manhã, nem no decorrer da tarde. Para mim, tudo havia voltado ao normal, Tenório havia entendido o recado.

Jantei na casa de amigas. No fim da noite, embiquei o carro para entrar na garagem e encontrei Tenório sentado na soleira da porta de entrada, chorando.

Primeiro, tive medo, mas depois, num impulso maternal, desembarquei e me aproximei dele:
— O que foi, Tenório? O que aconteceu?
— Eu estou arrependido, Leda, fui um rapaz muito do filho-da-puta contigo nos últimos dias. Você me perdoa?
Ajoelhei-me diante dele.
— Claro que sim, Tenório. Você está sob pressão. Toda esta confusão, este processo judicial, isto turva os pensamentos.
— Que bom que você me entende, ele disse, me dá um abraço de amigo?

Concordei. Mas, quando eu estendi os braços para enlaçar-lhe os ombros, Tenório me agarrou, tapou minha boa com uma das mãos e com o outro braço me deu uma chave de pescoço que me imobilizou. Arrastou-me até meu carro, eu me debatia, soltava todo o peso do corpo para dificultar o trabalho dele, mas de nada adiantou. Ele me jogou de cabeça contra a lateral do automóvel.


Estávamos em movimento. Apesar da escuridão absoluta, eu tinha certeza que nos movíamos. Minhas pernas estavam dobradas, minha cabeça doía pra caramba. Tentei mexer o corpo, mas o espaço era mínimo. O ronco do motor me fez supor que eu estava no porta-malas dum carro, talvez do meu carro.

Rodamos por muito tempo, quem sabe por horas. O automóvel parou, ouvi a porta se abrindo. Finalmente, o tampo do porta-malas foi erguido. Tenório me fitava com um olhar vazio, tinha uma faca na mão.

— Não faça nenhuma merda, sua vagabunda. Vou te tirar deste porta-malas e você virá comigo. Nem um pio, senão meto esta faca no seu bucho.

Obedeci em silêncio. Estávamos num matagal, pensei que ele me estupraria ali mesmo e depois me mataria, aquele procedimento usual dos depravados. Mas não, ali perto havia um outro veículo. Com a faca nas minhas costas, Tenório me levou até o carro, abriu a porta traseira e retirou um rolo de fita adesiva. Atou-me os braços e os pés, socou um lenço na minha boca e a selou com fita. Outra viagem no porta-malas, mais algumas horas de angústia.


Ele me amarrou numa cama no porão de sua casa. Sem janelas, quase sem iluminação. Arrancou minhas roupas e tentou me violentar, mas não conseguiu. Brochou. Insatisfeito, constrangido pelo fracasso, Tenório me espancou.
— Amanhã, ele repetia, amanhã!
Mas a mesma cena se repetiu no dia seguinte: Tenório, pau mole, surrando-me para extravasar a decepção.

À noite, ele adentrou o porão e sentou-se na beirada da cama. Eu tremia de frio e medo, nua, coberta de hematomas, com fome, supliquei para que ele me deixasse ir embora.
— Não, você não irá a lugar alguma, ele disse. Acariciou meus cabelos, aproximou a boca do meu ouvido e falou, bem baixinho:
— Hoje, um homem veio aqui. Procurava por você...
Comecei a chorar, assolada pela esperança de libertação.
— Eu não vou ser pego, Leda. Amanhã, eu descerei aqui... — ele sussurrava, quase arfando — e vou arrancar a vida deste seu corpo de puta.


Mal consegui dormir. Qualquer ruído, duma goteira em algum canto, de ratos, da cama rangendo, fazia com que eu despertasse. Juraria que ouvia passos, passos de Tenório, aproximando-se da cama e cravando uma faca no meu peito.

Gritei por ajuda, tentei me libertar das cordas até meus pulsos ficarem em carne viva, meus olhos ficaram inchados de tanto chorar.

A qualquer momento, Tenório poderia descer pela escada e vir me matar. Era o meu maior medo, não a morte de fato, mas a expectativa do ato. Aguardar, intermináveis horas, era desesperador.

Já devia ser tarde quando ouvi a porta do porão se abrindo. A cama estava numa posição que vetava qualquer visibilidade. Ele desceu sem acender luz alguma. Parecia hesitar.

Os passos vagaram pela escuridão, ele tateava as paredes. Fiquei quieta, contendo minha agonia. O som de passos aumentava, ele estava chegando perto da cama. Eu tremia, calafrios incontroláveis, queria cobrir minha nudez, este não era um modo digno de se morrer.
— Leda? — ele sussurrou, mas não respondi. Estava aterrorizada demais para conseguir articular uma resposta.
Os passos se aproximaram.
— Leda?

Eu não agüentei, o choro engasgado se libertou. Eu soluçava como quando queria que papai me segurasse no colo porque meu sorvete havia caído no chão — voltei a ter seis ou sete. Ele estava perto, muito perto agora.
— Leda, você está aí?
Mas a voz não era de Tenório, uma outra pessoa estava no porão.
— Meu Deus... — murmurei.
— Vim salvá-la, o homem disse, onde você está?
— Aqui, aqui! — gemi, eu estava protegida, estava a salvo.

Desengonçado, às cegas, o homem desatou as cordas e me vestiu com seu próprio sobretudo.
Ao sairmos do porão, avistei Tenório, amarrado numa cadeira, rosto embebido em sangue, inconsciente. O homem me levou até meus pais, extasiados por me reverem. Eu estava viva!

***

Não foi fácil me recuperar. Tive de me afastar do trabalho por alguns meses, passar um tempo longe da loucura da cidade e da podridão dos seres humanos.

Ontem, visitei o escritório do detetive Vico, o homem que me salvou. Queria que ele me contasse como foi que havia descoberto meu paradeiro.

Vico riu quando lhe fiz esta pergunta:
— Você não tem idéia, moça, do que podemos achar no lixo.
Ele havia encontrado, na cestinha de lixo do meu escritório, um dos bilhetes pervertidos de Tenório, e todas as peças se encaixaram. Uma tarde de surra e o tarado revelou a entrada secreta para o porão.

Tenório será eletrocutado, descobriram que ele já violentou mais de vinte mulheres e assassinou oito delas. Espero que ele sofra muito, mas muito mesmo. Estarei na primeira fila para assisti-lo fritar.


sábado, 3 de maio de 2008

O Veterano (Conto)

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Um franco-atirador aterroriza a cidade

O filho-da-puta pode correr o quanto quiser que eu não vou perder o rastro dele. É claro que, se eu houvesse parado de fumar, como prometi a mim mesmo uma centena de vezes neste último ano, eu não estaria quase morrendo, sem fôlego, arfando como um cachorro velho.
A neve que caiu durante a noite também não facilita nada. Uns cinco graus negativos? Talvez menos.
Vejo apenas um vulto adiante de mim, por entre as árvores, correndo contra o sol nascente. Ele não vai fugir! Nem tem como...

Acompanhei as notícias das primeiras mortes pelo jornal.
Algum maluco se entocava em telhados de prédios pela cidade e, quando menos se esperava, — BAM! — metia um tiro de fuzil nos miolos dum transeunte.
Nada sistemático: uma dona-de-casa, um pedreiro, um motorista de táxi, um mendigo e, da última vez, um médico, que teve a caixa craniana esfacelada pelo projétil .30-60 enquanto voltava do supermercado, trazia no colo a filhinha de dois anos.
Foi a esposa do finado quem me procurou, e a razão era muito simples: a polícia só trabalha mediante uma comissão. Não difere muito duma prática comum no judiciário, quem tem grana, recebe um tratamento melhor de quem não tem, o que favorece, quase sempre, quem está no lado errado da lei. Tatyana se assustou com o preço pedido pelos meganhas e refletiu — “se for para pagar esta fortuna para descobrir quem matou meu marido, prefiro eu mesma escolher aquele que acredito ser mais competente”.
Este pensamento a trouxe até mim, graças à reputação adquirida de que “eu matava a cobra e mostrava o pau”.
Geralmente não gosto de me envolver em assuntos policiais. Os tiras são mais bem preparados e possuem melhor equipamento para isto, mas a preguiça e a extorsão praticada era algo que me tirava do sério, além disto, a morte brutal do médico me deixou assustado. Fiquei pensando comigo mesmo — e se fosse minha namorada? Este maluco está circulando por aí, à luz do dia, rifle a tiracolo, e qualquer um pode ser o próximo alvo.
O envelopinho que Tatyana depositou sobre minha mesa também ajudou em minha decisão. Mas ela impôs uma condição:
— Quando você achar o desgraçado, detetive, não quero que o entregue à polícia. Na mesma hora, você me liga.
Nem titubeei, abri o envelope, contei a grana por alto e aceitei o serviço.

Reli os jornais empilhados no chão da cozinha e tentei traçar um paralelo entre todos os assassinatos.
Como imaginei, não havia nenhuma conexão óbvia, tirando o fato de que todos foram mortos ao entardecer, caminhavam pela rua e foram baleados na cabeça. Suspeitava-se que o disparo provinha dum fuzil de precisão M1903 Springfield, semelhante ao usado pelo exército.
Telefonei para Helen, um caso antigo, com quem não falava há alguns anos:
— Você é louco? Se meu marido souber que estou conversando contigo, ele mata nós dois!
— Preciso dum favor, Helen: uma lista com nomes e últimos endereços conhecidos de franco-atiradores do exército, afastados do serviço por distúrbios psiquiátricos — o tal marido da Helen era capitão do Exército, e algo me dizia que havia um milico por detrás daqueles disparos.
— Como é que eu faria isto? — ela se desesperou. Helen sempre ficava nervosa quando falava comigo, a promessa de casamento que fiz a ela e não cumpri havia abalado severamente nosso relacionamento.
— Sei que você é bastante criativa, moça. Você tem meu endereço, estarei aguardando por esta ajuda sua.
— Sinto sua falta, Vico... — a voz de Helen estava trêmula — Acabei de sair do banho, estou vestindo apenas uma camisola...
Bem, o resto do papo é assunto particular.

Tratei de visitar cada uma das cenas do crime e conversar com as pessoas — lojistas, transeuntes, residentes —, na expectativa de que alguém houvesse visto a cara do assassino. Mas nada: um havia ouvido o tiro, outro viu a cabeça da vítima explodindo, outro, apenas a correria dos pedestres desesperados.
O mendigo que havia sido vitimado costumava dormir numa praça do Centro. Na data da morte, ele conduzia um carrinho de supermercado — com seus pertences — até seu banco cativo, quando foi interceptado pelo disparo.
Naquela região, minhas investigações também estavam sendo infrutíferas, até que um sem-teto, fedendo a cachaça, me segurou pelo braço.
— Eu vi tudo, senhor...
— Viu? Então me conte — apanhei meu bloco de notas.
— O senhor não vai me oferecer nem um café? Está frio pra caralho hoje.
Paguei o maldito café ao mendigo e lhe prometi cinqüenta pratas se a informação fosse quente.
Ele apontou para um prédio e disse:
— O atirador estava lá, senhor, no telhado. Eu tinha visto um homem andando lá em cima, ele carregava algo, não pensei que fosse uma arma, então ele se agachou, mirou e atirou. Foi só um tiro, senhor, e acertou o Ferrugem. Poxa vida, o Ferrugem morava aqui na praça há quinze anos! — e havia lágrimas nos olhos do mendigo.
Já no telhado do edifício indicado, constatei que, se havia um ponto para o tiro perfeito, eu estava nele. De sobre o prédio, havia uma visão clara da praça, distante uns cem metros, apropriado para um disparo certeiro na cabeça.
Mas ninguém no prédio e arredores notou alguém diferente circulando por ali na data do crime.

Dois dias depois, recebi em casa um envelope pardo. Helen havia conseguido obter as informações que requisitei — os endereços de quinze veteranos afastados do serviço, desde desvios de conduta em serviço até problemas psiquiátricos mais graves.
Num mapa da cidade, aberto sobre a mesa da sala, marquei os locais dos crimes e os endereços dos meus suspeitos.
Ao redor do domicílio de Stephen Gardner, que havia servido como franco-atirador na Normandia, as mortes formavam um esclarecedor semicírculo. Ele seria o primeiro com quem eu tomaria um chazinho; se não fosse o Stephen, eu partiria para os outros suspeitos.

Bati à porta de Stephen Gardner.
— Quem é? — alguém, de dentro, perguntou.
— Vico, Detetive particular. Posso conversar com você?
Mas ninguém respondeu. Encostei o ouvido na porta e ouvi alguns ruídos. Aparentemente, a pessoa havia aberto a janela.
Lancei-me contra a porta e, na segunda ombrada, consegui arrebentar a tranca. Como imaginei, a janela estava aberta, o vento gelado inflando as cortinas.
Espiei para fora.
Estávamos no segundo andar, foi fácil para Stephen pular. Pude vê-lo correndo pelo beco abaixo, claudicando.
Refleti e cheguei à conclusão de que não valeria à pena pular atrás dele, eu apenas me arrebentaria. Desci as escadas, tentando alcançá-lo ainda no beco. Mas o avistei saltando para dentro duma caminhonete Ford. Quando estava quase alcançando a maçaneta do veículo, Stephen acelerou e desapareceu na primeira esquina.
Partindo duma lógica bem simples, de “quem deve, teme”, esta fuga quase confirmava minhas suspeitas sobre a culpa de Stephen. Voltei ao quarto dele e, no corredor, encontrei alguns moradores do prédio, assustados com o arrombamento.
— Tudo bem, sou da polícia — e lhes mostrei meu distintivo falso, que carrego justamente para acalmar esta estirpe de curiosos.
Entrei e encostei a porta. O quarto estava congelando até a alma, por causa da janela aberta. Fechei-a e passei a revirar a papelada sobre uma escrivaninha. Encontrei várias fotos, em quase todas, Stephen tinha um fuzil na mão. Havia também um diário, onde estava escrito, inúmeras vezes, centenas de vezes por página: “Você matará”.
Nas gavetas, muito lixo, mas algo importante, um pedaço de papel, com um mapa rabiscado e a inscrição:
Para chegar em Barranqueiras

O mapa indicava um caminho partindo do quilômetro trinta e dois da rodovia interestadual. Deveria ser alguma fazenda e, por algumas das fotos, deduzi que era algum tipo de acampamento de tiro, onde entusiastas podiam praticar tiro ao alvo, confraternizar e encher as caras longe das mulheres.
Como estava faminto, no caminho até a fazenda, parei num restaurante de beira de estrada e pedi um belo bife acebolado. Aproveitei e liguei para Tatyana, informando-a que, com grande grau de certeza, estávamos na cola do assassino do marido dela. Passei as indicações, mas recomendei que ela tivesse precaução. Não sabíamos como Stephen reagiria — provavelmente com agressividade —, nem quantas pessoas encontraríamos na fazenda. Se tivéssemos sorte, Stephen estaria sozinho. Por ser um dia de semana, eu contava com esta possibilidade.
Foi nesta hora que começou a nevar, primeiro alguns flocos, depois uma baita duma nevasca, que me proibiu de deixar o restaurante. Dirigir nestas condições era pedir para derrapar na estrada e sofrer algum acidente.
— Traga um café bem forte, pois a noite vai ser longa — pedi à garçonente, e fiquei ouvindo ao rádio até altas horas da madrugada, quando anunciaram que as estradas já estavam transitáveis.
Seguindo as orientações do mapa, embiquei na estrada de terra, agora um puro lodaçal de neve e lama. Meu carro encalhou algumas vezes e, num breu completo, iluminado apenas pelos faróis do automóvel, tive de desembarcar e tentar encontrar algum jeito de prosseguir. Perdi algumas horas neste curto trajeto até que, enfim, por volta dumas cinco da manhã, avistei um bangalô, luzes acesas, e diante dele o Ford.
Desliguei os faróis e, por ser uma ladeira, desci com o carro em ponto-morto, que deslizava pela camada de gelo. Estacionei, apanhei minha pistola no porta-luvas e me esgueirei até o casebre.
Adentrei o alpendre e espiei pela janela. Stephen estava sentado à mesa, abraçado ao fuzil, cabeça pendendo para frente, vencido pelo cansaço.
Tentei forçar a porta, mas seria impossível entrar sem despertá-lo. Talvez se eu conseguisse atraí-lo para fora, minhas chances seriam melhores e eu teria o elemento surpresa a meu favor.
Tatyana não o queria morto, pelo que me havia dito, por isto, dar um tiro na cabeça dele, deslealmente, como ele fazia com suas vítimas, estava fora de cogitação, mas se pelo menos eu o ferisse, já teria alguma vantagem. Mirei no braço, mas acabei optando pela perna, pois um pequeno desvio e poderia acertá-lo no coração.
Dei dois tiros através do vidro; um atingiu a perna de Stephen, na altura do joelho, mas o segundo atingiu a cadeira na qual ele estava. Por reflexo, anos de treinamento militar, Stephen buscou abrigo e retrucou com vários disparos contra a janela.
Afastei-me da casa e me escondi atrás da caminhonete.
O cano do rifle surgiu pelo buraco no vidro.
Ele não me veria, em meio à escuridão da noite, e, acostumado a caçador, Stephen não deveria estar confortável nesta posição inversa.
Ficamos em silêncio por vários minutos.
Stephen teria de tomar alguma atitude, ou sangraria até a morte dentro da casa.
Ele abriu uma fresta na porta.
— Stephen, gritei, sabemos que foi você quem matou aquelas pessoas! A polícia chegará a qualquer momento.
A resposta dele foi vários tiros, a esmo, em minha direção. Percebi que ele estava desestabilizado emocionalmente, ignorando qualquer noção estratégica. Isto se confirmou quando ele saiu correndo da casa, arrastando a perna por causa do ferimento e se embrenhou na mata.
Corri atrás, sempre me mantendo atrás de alguma árvore para me proteger dos eventuais disparos que ele efetuava. Atolávamos na neve até o meio da perna, ele com muito mais dificuldade para correr do que eu, exaurido por causa do frio, da noite sem dormir e desta corrida pelo mato.
Eu teria de esperar ele desistir; expor-me seria me arriscar a levar um tiro, engalfinhar-me fisicamente seria desvantajoso, pois um rapazola no auge da forma partiria um quarentão como eu em dois.
Após um tempo, nem mais corríamos, éramos apenas duas criaturas se arrastando pela neve; foi quando o sol começou a nascer.
Percebi que Stephen havia largado o rifle e, uns dez passos depois, desabou.
Aproximei-me dele e também me joguei de joelhos na neve. Ele parecia estar em choque.
Havíamos nos afastado muito do bangalô. Ao recuperar o fôlego, arrastei-o de volta. Eu estava quase congelando quando avistei o casebre. Só que, desta vez, além de meu carro e da caminhonete de Stephen, havia outros quatro carros estacionados.
Hesitei.
Na varanda, havia uma mulher, que reconheci sendo Tatyana. Ela fumava e, ao me ver, deu um grito, que atraiu para fora da casa várias pessoas. Todas vieram em minha direção e me auxiliaram a transportar o atirador para o interior.
— Estes são parentes das vítimas deste desgraçado, disse-me Tatyana.
Eles o reanimaram dando-lhe um pouco de brandy para beber, então o amarraram na cadeira e trouxeram uma mala, de onde cada um retirou um objeto. Nas mãos, navalhas, facas, serrotes, alicates. Tatyana tirou da bolsa um bisturi:
— Era de Felipe, meu querido... — ela esclareceu.
Eu já havia percebido o que se sucederia ali, mas, mesmo assim, perguntei:
— O que vocês vão fazer?
E, diante do olhar aterrorizado de Stephen, Tatyana respondeu:
— Ele nos causou uma dor muito maior do que podemos suportar; agora, vamos devolver um pouquinho desta dor para ele.
Quem era eu para tentar dissuadi-los? Dizer-lhes que isto era errado, quando eu, se estivesse na mesma situação, teria feito o mesmo, ou talvez pior?
Fitei uma última vez Stephen e saí, fechando a porta atrás de mim.
Embarquei no meu carro, guardei a pistola no porta-luvas e girei a chave na ignição, abafando, com o ronco do motor, os urros de agonia do atirador.