terça-feira, 28 de agosto de 2007

Obra do Diabo (Conto)

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Vico desmascara um santo homem

As manchas de sangue na cueca de Marquinhos causaram estranhamento. A mãe, ingênua, primeiro pensou que pudesse ser alguma infecção. Há anos que Joana não dava banho do filho, mas insistiu; porém, constrangido, Marquinhos, com treze anos, discordou.

— Que isto, mãe! Já sou quase um homem. Que negócio é este de querer dar banho em mim.
Joana conversou com amigas e nenhum delas sabia o que dizer, até que Flávia comentou, embaraçada:
— Uma vez, eu e meu marido fizemos por trás... Depois, por alguns dias, saiu sangue de lá.
As mulheres riram, descartaram esta hipótese, pois Marquinhos era homem e homem não dá o rabo. E, além disto, quem estaria enrabando Marquinhos?
No entanto, tal conjetura não abandonou Joana. Passou a bisbilhotar Marquinhos, quando ele estava com amigos, com quem andava no colégio. Nada que pudesse indicar um comportamento estranho. Foi por isto que Joana me procurou, para descobri quem estava comendo Marquinhos.
Obtive as mesmas conclusões dela, não eram os amigos, nem colegas de escola, Marquinhos tinha, inclusive, uma namoradinha no colégio, e dava belos amassos na garota durante o intervalo do recreio, mãos no peitinho e dentro da calcinha.
Santo o rapaz não era, e isto já era um bom começo.

Marquinhos tinha a rotina comum dum menino da idade dele: ia à escola durante o dia, jogava futebol no cair da tarde, flertava com a namoradinha à noite, jantava com a família, era coroinha nas missas de domingo.
“Tente enxergar o óbvio, Vico!”, eu dizia a mim mesmo.
Depois da missa, Marquinhos acompanhava o padre até a sacristia e desaparecia por quase duas horas.
Estaria acontecendo algo inusitado neste tempo? Além disto, caso minhas suspeitas se confirmassem, não seria nada fácil incriminar um bispo influente como Dom Francesco.
Fui à missa no domingo, e, se minha carreira de detetive não houvesse me preparado para a espera e a monotonia, certamente teria dormido com a ladainha em latim de Dom Francesco.
O culto foi encerrado e bispo e coroinha se retiraram para a sacristia. Os fiéis deixavam a igreja, enquanto eu me esgueirava por entre eles para alcançar o altar e descobrir o que se sucederia.
Na sacristia, havia uma porta que conduzia a um prédio anexo, onde se localizava a residência do bispo. Cheguei a tempo para vê-los entrar por esta porta e trancá-la.
Na semana seguinte, fui mais esperto. Dom Francesco rezava a missa, aproveitei para me infiltrar na sacristia e ingressar no alojamento do bispo, uma cela decorada com suntuosidade, ao invés do esperado ascetismo. Escondi-me no guarda-roupa, cuidando para deixar aberta uma fresta por onde assistir ao que estava por vir.
Após um quarto de hora, Dom Francesco e Marquinhos entraram na cela. Este ajudou o bispo a retirar a batina, logo percebi que o santo homem estava com o pau ereto. Fez um sinal para Marquinhos, que se ajoelhou e passou a chupar o padre.
Aquilo me fez ter engulhos, se eu não estivesse escondido, teria vomitado ali mesmo. Mas esta cena seria apenas a primeira dos absurdos que presenciei. Depois, dum baú, o bispo retirou um açoite e o entregou a Marquinhos:
— Você sabe o que fazer — Dom Francesco disse, então, virou-se para o rapaz e se preparou para ser flagelado. Marquinhos fazia o chicote estalar nas costas e nádegas do padre, que gritava, descontrolado — Mais, mais, mais!
Em seguida, Marquinhos enfiou o cabo do chicote do cu do padre, para grande deleite deste (e desespero meu). Por fim, o bispo se voltou e foi a vez dele sodomizar o garoto. As manchas de sangue na cueca estavam explicadas.
Marquinhos recebeu uma bela quantia de dinheiro do bispo e partiu. Dom Francesco adormeceu, em êxtase. Pude, enfim, deixar aquele antro.

— Dom Francesco? Não é possível! — Joana se descabelava, roendo as unhas — Você tem de estar errado... Por favor.
— Entendo que você não queira acreditar. Por isto, eu lhe direi como proceder. Somente assim você livrará seu filho deste pervertido.

No domingo, na hora do almoço, a polícia e jornalistas cercaram a residência do bispo. A polícia invadiu a cela e apanhou Dom Francesco e Marquinhos em flagrante.
Sob o flash das câmeras da imprensa, o bispo berrava, justificando-se:
— Isto foi obra do diabo! Obra do diabo!

Recordei-me de meu avô, com sua simplória sabedoria, que sempre repetia: “O diabo está em nós”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Roleta-Russa (Conto)

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Vico enfrenta um violento cafetão

Quando li a manchete no jornal — “Cafetão morto com 152 facadas” — não pude deixar de pensar em minha participação nisto.


Eu havia acabado de deixar o escritório e mergulhei no chuvisco gelado. Abaixei a aba do chapéu e ergui a gola do casaco para me proteger da garoa, quando fui abordado por uma moça, envolta num sobretudo de couro, tremendo de frio.
— Lembra-se de mim, Vico?
O rosto dela me era familiar.
— Jen? — arrisquei.
Ela riu e se lançou em meus braços.
— Aceita um café? — perguntei, e fomos até uma cafeteria.

— A vida não tem sido fácil, Vico — Jen me contava. Ao contrário da maioria das mulheres que passaram pela minha vida, eu não havia trepado com Jen. Ela era filha dum antigo amigo, morto num assalto. Depois do assassinato dele, a família se desintegrou. A esposa cometeu suicídio, dois anos depois. O filho se envolveu com drogas, atualmente, cumpre pena na Penitenciária de Columbus; e a filha, Jen, afundou-se na prostituição.
— Seu pai foi uma grande perda... — externei, mas não era sobre isto que ela queria falar.
— Você soube do caso da prostituta assassinada? — Jen indagou.
— Ouvi rumores.
Havia aparecido nos jornais. Alguém caçava nas matas circundando a cidade e seus cães farejaram algo. Cavaram perto duma árvore e encontraram um cadáver em decomposição. Estava lá há três semanas. Reconheceram-no como sendo duma prostituta, especularam que poderia ser vingança, ou um tarado qualquer. Nada extraordinário nestes nossos dias insanos.
— Ela era minha amiga, Vico. Eu tenho quase certeza de quem foi o desgraçado que a matou, mas não tenho como confirmar isto. Por favor, eu lhe peço que me ajude — Jen tirou do bolso um maço de dinheiro e o deslizou por sobre o tampo da mesa.
Beberiquei o café e apanhei o dinheiro. Até pensei em rejeitar a grana, prestar uma homenagem ao finado pai da moça, mas eu não podia me dar este luxo.
— Realmente, a vida não anda nada fácil, Jen.

O suspeito da moça era um russo chamado Grigor Ivanovich, alcunhado “O Roleta”. O apelido devia-se ao estranho hábito que ele tinha de flertar com a morte. A grande diversão de Grigor era brincar de roleta-russa. Cultivava este hábito há anos e escapou de explodir os miolos uma dezena de vezes. Na última ocasião, tão conhecedor desta arte, ao ouvir a combustão da pólvora, ele conseguiu desviar a arma em fração de segundos e sobreviveu com uma cicatriz que lhe cortava a cabeça dum lado ao outro das têmporas. “Eu tinha certeza que, naquela noite, eu deveria ter morrido. Como escapei, acho que não morro mais”, Roleta propagava entre os amigos.
Roleta era uma figura conhecida. Bastou eu chegar na Cidade Baixa para encontrá-lo, flanando pelas esquinas, dando esporros nas putas, gerenciando seu negócio, recolhendo a grana dos programas.
De todas as maneiras possíveis para proceder a investigação, refleti que uma abordagem direta seria mais eficaz, assustaria o cafetão e não me faria perder muito tempo, pois o dinheiro pago por Jen não era dos mais vultuosos.
— Você é O Roleta? — perguntei logo, tentando intimidá-lo.
— Sou eu. E você, o que quer? — Grigor retrucou na mesma moeda.
— Tenho um particular contigo, sobre uma das suas meninas.
Ele devia estar acostumado a receber clientes insatisfeitos com as putas, que queriam o dinheiro de volta, ou porque foram roubados. Grigor me puxou para um beco.
— Vai falando — ele me encarava.
— Chegou aos meus ouvidos que você matou uma das garotas que trabalhavam pra você — fui claro.
Roleta arregalou os olhos, como se um grande segredo houvesse sido desvelado. Ele pôs as mãos no bolso.
— E eu tiver feito isto? O que você tem a ver?
Provavelmente, Roleta deveria estar armado, por isto, a primeira atitude seria privá-lo do brinquedo. Desferi um soco em Grigor, quebrando-o o nariz, avancei e imobilizei o braço dele, aproveitando para esfregar a cara do bastardo na parede do beco. Sem força no braço, ele deixou cair o revólver.
— Pode contar tudo — sussurrei no ouvido do cafetão.
Mas o canalha não era nenhum bundão. Ele começou a se debater, acertou uma cabeçada na minha boca e, muito mais jovem e forte do que eu, se libertou. Com o jogo invertido, ele me esmurrou, pisoteou-me e cuspiu na minha cara, encurralando-me cada vez mais no beco.
Juro que tive medo daquele homem, nariz ensangüentado e ódio no olhar. Roleta sacou uma faca, vinha em minha direção. Eu, no chão, me arrastava para trás, para fugir daquele assassino.
— Você deve ser muito imbecil mesmo, para vir no meu território, tirar satisfação do que faço ou deixo de fazer. Aqui, seu viado, sou eu quem manda! Aquela vagabunda morreu porque era uma puta desgraçada. Me roubava, mentia pra mim, fazia tudo pra me sacanear. Tudo tem limite. Uma hora, meu saco encheu e dei fim nela. Qual o problema? Estas putas não servem pra nada mesmo!
Pelo menos, eu já tinha uma confissão do Roleta. Puxei a arma da cintura e apontei pra ele. Foi então que vi alguns vultos atrás do Roleta.
— Vico, levante-se e vá embora. Já sabemos o que queríamos saber — era a voz da Jen.
Ergui-me e vi uma vintena de prostitutas, canivetes, punhais e navalhas nas mãos. Agora o assunto era entre Roleta e elas; agora, ele descobriria pra quê as putas serviam.
Ouvi gritos de horror e dor ao sair do beco.

Na manhã seguinte, a tal manchete no jornal.

Esbarrei-me em Jen alguns meses depois, pelas mesmas ruas da Cidade Baixa. Agora, quem desfilava pelas esquinas metendo medo nas putas era a própria Jen, ela havia assumido o comando.
— Agora entendi tudo, menina — comentei, sem conseguir conter o riso — Você me usou para poder assumir o lugar do Roleta.
— Tudo que sobe, desce, Vico. As garotas estavam insatisfeitas, só precisavam dum estímulo. Não tinham coragem. Precisavam dum homem como você para servir de estopim.
— E você está tratando as meninas melhor? — questionei.
— Nem melhor, nem pior. Eu as trato do que jeito que elas merecem — Jen respondeu, como se houvesse nascido cafetina.
— Mas se cuide para que você não tenha o mesmo fim do Roleta, toda furada.
— É como dizem, Vico, o mundo roda, mas sempre volta para o mesmo lugar.