sábado, 18 de agosto de 2007

Amor Fraternal (Conto)

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Uma estranha investigação retorna para assombrar Vico

Meu pai tinha hábito de fumar na cama. Certa vez, ao retornar bêbado para casa, ele se deitou, acendeu um cigarro e dormiu. Despertamos com o apartamento em chamas, minha mãe com queimaduras de terceiro grau em 15% do corpo.
Desde então, tenho sono leve.
Por isto, ouvi nitidamente quando a porta da espelunca onde moro rangeu, e o sapato de salto alto se aproximou da minha cama. Eu não estava esperando ninguém, por instinto, deslizei minha mão para debaixo do travesseiro e encontrei meu revólver. Entreabri os olhos.
Uma mulher, vestida de preto, chapéu de largas abas, apontava um calibre 28 para minha cara, chorava.
— Posso ao menos saber por que vou morrer? — tive a presença de espírito de perguntar.
— Deixe de ser ridículo, Vico, existem milhares de razões para te quererem morto! Cada um daqueles que foram prejudicados por suas bisbilhotices.
Bem, estávamos chegando a algum lugar.
— E como eu te prejudiquei? — soergui a cabeça, mão sob o travesseiro.
— Não se lembra, seu escroto? — a mulher devolveu-me a questão, enfurecida — É claro que não! Para você, tudo se resume a dinheiro. Você cava os podres alheios, conclui sua investigação, e o resto que se exploda. Não espera para assistir os resultados.
— Acho que você não estaria aqui hoje se fosse uma virgem sem pecados, não é?
— Mentira, seu porco! Você arruinou minha vida! Fez meu marido se voltar contra mim, e tudo fundado numa mentira!
Porém, eu ainda não me lembrava deste caso.
— Você disse a meu marido que eu tinha um amante, mas você me fotografou com meu irmão.
Vago demais.
— Eu havia ido até o apartamento dele, ele precisava de dinheiro, meu marido não gostava dele e não podia saber que eu o estava ajudando. E você tirou fotos nossas nos abraçando, e disse a meu marido que éramos amantes.
Agora eu estava começando a me recordar. O marido tinha certeza de que ela tinha um caso: eles não transavam mais, porém, sempre havia manchas de porra nas saias e calcinhas dela. Ele jurava que a mataria quando confirmasse isto, pelo visto, não a matou.
— Vocês não eram irmãos, vocês se beijaram na boca. Eu estava num bom ângulo, pela janela, pude ver e fotografar tudo. Vocês se beijaram assim que entraram no apartamento, depois, ele abriu sua blusa e apalpou seus seios. A luz da sala se apagou e vocês foram para o quarto. Lá, ele também se despiu e a pegou por trás. Agora me lembro claramente. Vocês não eram irmãos.
— Não seja ridículo! Nós somos irmãos, você não sabe o que é amor fraternal!
Aquilo era grotesco, se eles fossem realmente irmão... Não, não dava para conceber isto!
— Eu sei bem o que fotografei, e aquilo não era nenhuma demonstração de amor fraternal — retruquei.
— Você com estes seus valores burgueses... É deprimente!
— Deprimente é uma vadia que trepa com o próprio irmão vir me falar de valores, ainda mais com uma arma apontada para mim.
Não sei o que se passava na minha cabeça quando eu disse isto, mas, com certeza, eu não esperava que isto a estimulasse a apertar o gatilho. Elas disparou duas vezes, o primeiro tiro desapareceu no colchão, o segundo atingiu meu braço, mas minha arma estava na outra mão, então, reagi e a acertei com quatro disparos, um na cabeça e os outros no torso. Aí está a diferença entre quem sabe o que faz.
A gritaria começou no corredor, gente vinha espiar o que estava acontecendo, a polícia foi chamada. Eu não tinha com que me preocupar, legítima defesa, eu estava no meu apartamento, ela atirou primeiro.
No entanto, minha mente não se acalmava. Eu nunca havia matado uma mulher antes, e isto é o tipo de coisa que não se esquece facilmente. Mas, mais do que isto, o bizarro relacionamento entre irmão e irmã me inquietava.
A polícia me interrogava, os peritos tiravam foto do cadáver, um paramédico fazia um curativo no meu braço, e meus pensamentos vagavam. Há tanto neste mundo, tantos comportamentos, tantas pessoas diferentes, tabus e transgressões.
Viverei, mas não verei tudo.


quinta-feira, 16 de agosto de 2007

A Enfermeira e o Sargento (Conto)

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Vico investiga um amor em tempos de guerra

— Então vocês se conheceram durante a guerra? — eu segurava as cartas, escritas em letra miúda e ligeira.
— Sim, detetive Vico. John estava aquartelado em Liége, e eu estava na mesma cidade com o Corpo de Enfermeiras do Exército. Um amigo dele foi baleado durante um ataque alemão e John o levou até o hospital. Foi quando nos conhecemos.
— Amor à primeira vista, imagino? — eu ri.
— Eu sei que pode parecer tolice, detetive, mas foi exatamente isto. Em meio a tanta desgraça, quando meus olhos se encontraram com os de John, descobri que havia encontrado o homem da minha vida.
— E você não tentou procurá-lo depois de a guerra haver acabado?
— É aí que está o problema, eu nem saberia por onde começar. Nós trocamos correspondência quando John foi deslocado para Antuérpia, mas, depois de um mês, não recebi mais resposta alguma dele. Não tenho idéia de onde ele possa estar.
— Você tem noção de que este tipo de investigação pode custar caro, Linda?
O semblante dela denunciava que ela não entendia o porquê do alto custo.
— Se ele estiver vivo, talvez eu seja obrigado a me deslocar para outras cidades, atrás de alguma pista do paradeiro dele.
— Ah sim! Mas não precisa se preocupar... Minha avó faleceu recentemente e me deixou um dinheirinho. Eu pretendia fazer outras coisas com ele, mas se for para encontrar John, vale a pena.
— Já faz tanto tempo que a guerra acabou, o que você espera descobrir sobre John?
— Não sei... — as mãos de Linda tremiam — Eu esperei por ele todos estes anos... Gostaria de saber que ele também fez o mesmo.
O ser humano é um bicho curioso, vive por causa de sonhos, é avesso à realidade.
— E se ele não a houver esperado? — indaguei, por mera curiosidade.
— Ah, detetive, o meu John me esperaria!

Fui ao arquivo do Exército naquela mesma tarde, uma gorda de óculos estava sentada numa escrivaninha. Quando eu abri a porta, ela me olhou de cima a baixo, fulminando-me. Aproximei-me, a gorda fingia indiferença.
— Que lindos brincos os seus... — comentei, nada melhor do que jogar com a vaidade feminina, pois até aquela mulher horrenda deveria ter um pingo de vaidade.
A gorda abriu um sorrisão.
— Você acha?
— Claro que sim. Eles combinam com seus olhos — neste ponto, eu não precisava mentir, os olhos azuis da gorda eram a única coisa bela naquele corpanzil.
Os olhinhos piscaram contentes.
— Como posso ajudá-lo? — ela sorria, numa mudança drástica de comportamento.
— Eu estou procurando por um sargento. Ele era da minha Companhia, e eu gostaria de obter informações sobre o paradeiro dele.
— Claro, claro. Qual o nome dele?
— John Morris.
Com sofreguidão, a gorda se levantou e entrou numa saleta envidraçada, revirou alguns arquivos e dum deles retirou duas pastas.
— Há dois sargentos com este nome — ela retornou — um da Divisão de Engenharia, morto em combate em Antuérpia, outro do Corpo de Pára-quedistas, ferido em combate também em Antuérpia.
— Estranha coincidência, não? — resmunguei.
Ela me estendeu as pastas:
— Reconhece algum deles?
Os dois Johns eram bastante parecidos. Cenho franzido, neguei.
— Eu não saberia dizer, após todos estes anos. A memória é traiçoeira...
A gorda sorriu.
— Faz-me um favor? — perguntei — Posso ter uma cópia destes documentos?
Imediatamente a gorda se postou diante da máquina-de-escrever e me datilografou uma cópia.

Encontrei-me com os pais dele:
— Como sentimos falta do nosso John — eles murmuravam incessantemente, sempre que eu mencionava o nome do filho. Porém, eles nada sabiam sobre um relacionamento amoroso entre John e uma enfermeira, durante a guerra. Até acharam estranho o fato, pois John tinha uma namorada, para a qual escrevia cartas quase que diariamente.
Porém, eu não estranho nada; quantos casos não investiguei de maridos que dizem a cada quinze minutos que amam as esposas, e repetem o mesmo com as amantes?

O outro John Morris morava, segundo o arquivo, há trezentos quilômetros. Jantei num restaurante de beira de estrada e viajei durante a noite.
Cheguei cedo à casa de dois andares, varanda e cachorro latindo no quintal. Bati à porta e fui atendido por uma mulher.
— Procuro por John Morris. Ele mora aqui?
— Sim, vou chamá-lo — foi a resposta. A mulher desapareceu e logo surgiu um senhor, por volta dos quarenta anos, claudicando e auxiliado por uma bengala.
— Olá, Sr. Morris, meu nome é Vico e eu sou repórter da “Tribuna de Notícias”. Estou preparando uma reportagem sobre veteranos de guerra e encontrei seu nome nos arquivos do Exército. Você se importaria em responder algumas perguntas?
John Morris aquiesceu, até com um certo lisonjeio.
Sentamo-nos na varanda e a esposa dele nos trouxe um refresco, mas teve o bom tom de nos deixar a sós.
John Morris me contou sobre como seu pelotão de pára-quedistas saltou atrás das linhas alemãs, foram cercados, escaparam, se reagruparam e conseguiram minar as defesas inimigas, depois sobre sua participação da Batalha do Bulge, quando as forças do Eixo tentaram um contra-ataque e ele, em Antuérpia, foi alvejado por um tiro de fuzil na perna e afastado do combate. Eu, por minha vez, falei do tempo em que servi na Marinha, na Campanha do Pacífico e como torpedeamos encouraçados japoneses. É óbvio que não falei que fiquei na ativa por apenas três meses, e, depois, passei quase um ano numa prisão militar por insubordinação, pois este não é o tipo de coisa que um sargento condecorado gostaria de ouvir.
Em pouco mais de uma hora, eu e John já éramos praticamente amigos de infância.
— E me diga uma coisa, John, — perguntei — e sobre os amores de guerra, foram muitos?
Pela primeira vez, notei que havia tocado uma ferida aberta; o olhar de John se embaciou, desaparecendo no horizonte.
— Muitos? Não, apenas um — havia tristeza na voz dele.
— Importa-se em me contar como foi?
Foi então que me certifiquei de que este John Morris era o John Morris que eu estava procurando, o amor desaparecido de Linda. O que se seguiu não foi novidade, eles se encontraram no Hospital em Liége, fizeram amor pela primeira vez entre os escombros duma casa, corresponderam-se e ele foi ferido em batalha.
— Mas entenda, Vico, eu tinha uma noiva antes de ter partido para a guerra. Eu tinha um compromisso. Na guerra, tomamos várias atitudes que não podemos tomar quando tudo se assenta. Eu amo... — John pigarreou — eu amava Linda; tenho certeza de que seria muito feliz com ela, mas eu tinha uma vida aqui. Não era algo para se jogar fora. Sou feliz, Vico, tenho uma esposa maravilhosa, um filho que logo estará na faculdade. Linda também deve ter se casado e tido filhos. Assim é a vida.
— E se vocês se reencontrassem, hoje? — indaguei, ainda comovido com a história de John.
— Isto seria devastador para mim... Talvez... — John hesitava — Tudo pelo que lutei seria posto em cheque. Melhor nem pensar na hipótese. Sou feliz como sou.
Passei a tarde na casa de John, vi retratos de família, conheci seu filho, ele realmente tinha motivos para ser feliz.

Chamei Linda até o escritório.
— Não tenho boas notícias para você, Linda.
Os olhos da enfermeira se encheram d’água.
— Pode falar, detetive, estou preparada... — porém, evidentemente, ela não estava — John está morto, não está?
— E se ele estivesse vivo? — questionei.
— Ele teria me procurado...
— E se ele tivesse mulher e filhos? — insisti.
— Não, ele jamais se casaria com outra mulher! Ele disse que me amava — Linda se desesperava.
Abri a gaveta da minha mesa e meus dedos correram por sobre as duas pastas, uma com o John morto, a outra com o John bem vivo. Apanhei uma delas e entreguei a Linda.
— Sinto muito, John morreu em combate.
Sem nem mesmo ler a ficha, Linda desatou a chorar.
— Obrigada, Vico, aqui está seu dinheiro — ela pôs um envelope sobre a mesa.
— Só mais uma coisa, Linda. No arquivo do Exército, havia uma carta endereçada a você. John não teve tempo para entregá-la, morreu antes, mas é para você.
A carta estava amarelada, amassada e manchada de sangue. O rosto de Linda se iluminou.
— Obrigada! — e, correndo, ela deixou meu escritório.
Quando me encontrei com John, ele mencionou esta carta, estava no bolso da calça que usava ao ser baleado. Implorei para ficar com ela, John titubeou, mas, no fim, confiou em mim. É óbvio que a li, e nela John repetia uma dezena de vezes a importância de haver conhecido Linda, de como a amava e que como haveriam de ser felizes juntos. Seria uma ótima despedida para Linda, quem sabe ela pudesse tocar a vida adiante depois disto.
Espiei pela persiana e vi Linda lá embaixo, na esquina, carta aberta nas mãos, escrita ligeira e miúda, num desamparado choro de alegria.

O ser humano é mesmo um bicho estranho, sempre prefere uma mentira que o faça sonhar.

domingo, 12 de agosto de 2007

O Amante (Conto)

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Vico é contratado para um inusitado caso de traição


Minhas mãos já estavam doloridas de tanto esmurrar aquele viado. Na minha carreira de detetive, já fui contratado para descobrir e fazer muitas coisas, mas nunca, nunca para matar alguém. Tiago, este era o nome do saco-de-pancadas, me implorava para deixá-lo ir.

— Por quê? Por quê?
A razão era simples, a esposa dele havia me procurado, dias atrás, com sérias suspeitas: o marido não parava mais em casa à noite, dizia estar fazendo hora-extra nos finais-de-semana, havia perdido vontade de transar com ela, fundamentada nestes indícios, ela tinha certeza de que Tiago a traía.
Eu a havia alertado que também podia não significar nada, num casamento de dez anos, o relacionamento poderia ter apenas se amornado, mas que investigaria e sanaria as dúvidas dela.
Por uma semana, segui os passos de Tiago, que levava uma vida irrepreensível. Realmente, o que ele dizia ser hora-extra o era de fato, até altas horas ele permanecia no escritório, tentando pôr em dia o serviço atrasado. Eu já estava quase certo de que Tiago era um homem fiel à esposa, até que, no sábado, ele saiu de casa por volta das sete e dirigiu até um bairro de péssima reputação na cidade, reduto de prostitutas e travestis.
Ele estacionou numa alameda escura e desapareceu num bar. Segui-o. Porém, ao invés de encontrá-lo cercado de vagabundas, o bar no qual Tiago havia entrado era ponto de encontro de viados. Ele estava sentado no balcão do bar, aos beijos com um bigodudo. Tive asco, ainda mais quando uma bicha se aproximou, passou a mão na minha bunda e me perguntou:
— Vem sempre aqui, gostosão?
Num reflexo, tirei a mão do baitola de mim, quase esmagando seus dedos:
— Só se for para dar uma surra em afetados como você!
Choramingando, a bicha se desvencilhou de mim e correu para o banheiro do bar. Como a minha reação havia chamado atenção, pensei que seria melhor eu sair dali, antes que Tiago percebesse minha presença.
Aguardei dentro do carro, e, quando Tiago saiu abraçado com o bigodudo, ambos parcialmente bêbados, consegui tirar belos retratos do casalzinho.

Flávia estava inconformada. Uma mulher sempre está preparada para flagrar o marido com uma amante, é da natureza humana trair, instintivo, um resquício do animal irracional que somos. Porém, flagrar o marido com um amante, esta é outra história!
Podem até me acusar de retrógrado, de recalcado, mas a sociedade é que possui e defende tais atributos; é o que chamamos de normalidade. Flávia, a mulher traída, se enfureceu:
— Eu até poderia perdoá-lo, detetive Vico. Nós mulheres somos todo perdão, mas há coisas que não se tem como desculpar. Com outro homem? Você tem certeza disto?
Mas as fotos sobre a mesa respondiam por mim. Flávia mirou-as mais detalhadamente:
— Tem certeza de que não é um amigo dele?
— Isto não posso afirmar, mas, se forem amigos, é uma amizade bastante peculiar, pois eu nunca abracei ou beijei meus amigos antes, nem combino de me encontrar com eles em botecos de viados.

Flávia assinou um cheque e partiu; duas horas depois, o telefone tocou, era ela.
— Vico, você pode vir à minha casa hoje?
Era umas dez da noite quando cheguei lá e fui conduzido até a sala-de-estar.
— Tiago não está em casa, não precisa se preocupar — Flávia me estendeu um drinque.
— E como posso ajudá-la?
— Sabe, detetive, eu tenho me sentido muito sozinha nestas últimas semanas — ela segurou minha mão entre as dela — não é nada fácil para um mulher, cheia de vida, cheia de fogo, viver com um homem que envergonha a raça.
— Eu compreendo — respondi, deslizando a outra mão pela coxa dela. Notando que eu havia fisgado a isca, Flávia se sentou no meu colo, beijou-me, abriu meu zíper e transamos na sala mesmo, pouco nos importando se Tiago chegaria ou não.

Deitados no tapete, nus, Flávia me pediu:
— Tiago é uma desgraça. Mate-o, por favor, Vico. Mate-o.
Não pense que eu sou daquele tipo do otário que se impressiona com facilidade; não é qualquer trepada, nem qualquer boceta que me priva do raciocínio. Eu concordei em matar Tiago, não tanto pelo pedido de Flávia, mas porque a existência dele, as práticas bichescas dele, o comportamento efeminado me enojavam. Talvez, matando-o, eu estivesse contribuindo para tornar o mundo melhor.

Então, numa sexta-feira, eu esperei até que ele saísse do bar, fosse a um motelzinho barato das redondezas, e, no fim da noite, eu o apanhei no beco e o esmurrei até dizer chega. Tiago não tinha idéia porque estava apanhando, não imaginava que Flávia houvesse descoberto sua vida dupla, nem que eu estava ali para dar um fim a sua vida miserável.
Tirei o revólver da cintura e, quando estava para disparar na cabeça dele, refleti: e se eu estivesse errado? E se ele fosse feliz deste jeito, fazendo o que fazia, amando quem amava? Que direito tinha eu de tirar-lhe a vida, eu que sim tenho uma vida desgraçada, na merda, repleta de preconceitos e pindaíbas? E se um dia, quando os ares da mudança chegarem (a mudança sempre vêm, não importa o quanto lutemos contra ela), eu estiver errado e ele estiver certo?
Estes pensamentos bem poderiam ser conseqüência duma piedade que emergiu em mim, ao ver aquele homem, medo no olhar, que só agia como agia porque desejava ser feliz; ou poderia ser também uma profunda reflexão filosófica. Independente do que fosse, fez-me tomar a decisão de deixá-lo viver.
— Não quero vê-lo mais nesta cidade. Vai embora agora, com a roupa do corpo. Se você voltar, eu meto uma bala em sua cabeça.

É claro que eu não faria isto, se eu o havia deixado viver, não mudaria de idéia depois, mas sei como as mulheres são vingativas e Flávia jamais o perdoaria.
Dentro do meu carro, permaneci um tempo a observar as bichas entrando e saindo do bar, riam, estavam felizes, em contraposição a mim, que era homem de verdade, normal, e estava triste.
Qual de nós tinha razão?