sexta-feira, 6 de julho de 2007

Capítulo 27

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O detetive Vico o diário de Silvana

Num banco de praça, sob a minguada luz dum poste, desenrodilhei o diário do pano. Ao abrí-lo, algo caiu dele, ouvi um som metálico entre meus pés. Abaixei-me e tateei no escuro. Uma chave, pequenina, atada a uma fita carmesim. Guardei no mesmo bolso onde estavam os comprimidos de Silvana.

O diário da falecida eram anotações esporádicas, às vezes, com semanas de intervalo entre uma entrada e outra. Começava há uns três anos, terminando numa noite antes do dia da morte dela.

Havia uma tentação me forçando a lê-lo de trás para frente, mas, o mais óbvio, o mais sensato, seria começar pelo começo. Primeiro, as causas; depois, as conseqüências. Isto se o que eu estava procurando estivesse escrito ali.

Silvana contava suas misérias; ela não tinha talento para poetisa, mas, vez ou outra, surgia um soneto mal escrito. Sempre lamúrias, reclamando duma vida desgraçada, mescladas com o anseio de deixar a vida de mulher fácil (existe coisa mais difícil do que ser mulher de vida fácil?, pensei). Então, o nome de Carregno começa a aparecer no diário; primeiro como Don Carregno, o dono da boate na qual ela dançava, depois, como Gigi. Não é difícil deduzir que, dentre estes dois momentos, muito aconteceu.

A melancolia de Silvana desaparece, aos poucos, e há um vislumbre de que, talvez, a vida não fosse tão miserável quanto se pensava. A morte da mulher de Giuseppe é uma nova prova, para Silvana, de que sua vida está mudando; é convidada para morar na mansão, Giuseppe arruma-lhe um quarto, uma gorda mesada. Mas o preço que ela tem de pagar é grande, como marido, Giuseppe não é tão carinhoso como quando eram amantes. Silvana apanha e, se tentasse fugir, seria morta. Talvez a vida não fosse tão bela como ela chegou a pensar que poderia ser. Então, surge Vinny, o sobrinho do chefão.

É que a história começa a ficar realmente interessante.

E é que as peças começam a se encaixar.

Foi quando comecei a descobrir meu papel nesta armação, o modo como fui manipulado, e o perigo que eu representava.

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terça-feira, 3 de julho de 2007

Capítulo 26

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Vico no quarto de Silvana

O grito de Salvatore foi abafado por tiros; o irmão de Giuseppe morria sobre ele.

Com o objetivo cumprido, os chineses, com a mesma celeridade com que chegaram, também desapareceram.

De sobre a varanda, fitei demoradamente os dois corpos — de Giuseppe e de Salvatore; dois dos mais importantes homens da cidade, mais temidos, agora mortos, num ataque tão absurdo, tão impraticável que sequer foi considerado pela guarda de Carregno.

Quem imaginaria que os chineses agiriam no interior do próprio refúgio do inimigo?

Não se poderia dizer que aos chinas faltava audácia. Eles tinham coragem, isto estava provado, capofamiglia e sotto capo abatidos diante de mim.

Eu havia perdido a viagem, jamais descobriria porque minha morte importava tanto a Giuseppe Carregno, antes que eu pudesse pegá-lo desprevenido, outros se adiantaram e o fizeram. Restava-me voltar para a casa da Rose e, desta vez era pra valer, sumir por um tempo.

Atravessei o quarto de Giuseppe, todo destruído pelos tiros das metralhadoras, e cheguei a um corredor; avistei a escada descendente, de , atingiria o átrio e a porta de saída. Em poucos minutos, estaria dirigindo, para os braços de Rose.

No entanto, pela porta entreaberta dum dos cômodos, avistei um porta-retratos. Nele, uma foto de Silvana, loura, batom vermelhíssimo, lábios entreabertos, como uma vagabunda pronta para sexo. Deslizei minha mão pela porta e ela se abriu. O quarto estava decorado para uma senhora, penteadeira, vestidos sobre a cama, armário aberto, pantufas escapando de sob a cama.

A mulher de Carregno havia morrido há uns dois anos, não lhe deixou filhos. Silvana deveria ser concubina de Giuseppe neste tempo; após o luto, ele preparou um quarto para ela e a trouxe para casa. Provavelmente, isto deve ter irritado muita gente na família. “Que desrespeito!”, deviam sussurrar os mais velhos. Mas a posição de Carregno lhe bastava para dizer: “Que se foda!” e botar a concubina diante da vista de todos. Havia melhor coisa do que, à noite, com aquela ereçãozinha noturna, levantar-se e, a distância de dez passos, ter uma mulher pronta para lhe satisfazer?

Além de que Carregno deveria ter também outras mulheres pela cidade. Um homem como ele nunca se satisfaz com apenas uma; assim que Silvana se tornou uma espécie de “segunda esposa”, Carregno teria de partir à procura duma “segunda amante”, duma terceira, duma quarta.

Revirei as gavetas do criado-mudo. Será que uma mulher como Silvana mantinha um diário? Isto não é hábito de adolescentes de aparelhos, choramingando por causa dum primeiro amor? Encontrei frascos de remédio. Pelo que tudo indicava, Silvana devia estar dependente deles. Apanhei um dos frascos e guardei no bolso. Abri os armários, havia mais roupa ali do que eu e Rose tivemos juntos durante toda a vidavestidos, sapatos, bolsas, chapéus —, tudo do bom e do melhor.

Por mera curiosidade, olhei embaixo da cama, apenas as pantufas.

Ergui um dos lados do colchão e, para minha surpresa, havia algo envolto num pano roxo. Desenrolei o objeto retangular. Descobri, então, que diários não eram coisas de adolescentes apaixonadas. Ali estava o diário de Silvana.

Ouvi som de sirenes.

Quando se conta com a incompetência da polícia, com a demora deles em responder aos chamados, ela nos decepciona. Eu adoraria, aliás, eu precisava de mais tempo para vasculhar o quarto.

As viaturas se aproximavam. Enrolei novamente o diário e corri para fora do quarto, escada abaixo, em direção ao quintal. Saltei por sobre os corpos de Giuseppe e Salvatore e atravessei o jardim. Pulei o muro.

Tive de ir andando até a casa da Rose. O carro dela estava em frente à casa de Giuseppe, a polícia deveria ter chegado, os habituais cordões de isolamento. Amanhã, eu voltaria e retiraria o automóvel, mas, agora, a curiosidade em saber o que havia no diário era muito maior.

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