sábado, 30 de junho de 2007

Capítulo 25

0 comentários

O fim duma dinastia

“Se Maomé não vai à Montanha, a Montanha vem até Maomé”, não é o que diz o ditado?

Giuseppe Carregno e seus homens estavam em menor número e não sairiam de seu esconderijo para serem pegos pelos chineses; paradoxalmente, o chefão deveria estar contando com aqueles que justamente mais queriam vê-lo cair; se o impasse durasse por muito tempo, a polícia chegaria e os chineses seriam obrigados a recuar; a emboscada fracassaria; os italianos preparariam a desforra.

Mas na missão dos chineses não havia margem para fracasso. Só partiriam após obterem o objetivo, por isso, os soldados orientais começaram a subir a escada.

Ouvi o som de metralhadas, mais um dos capangas de Carregno devia ter perecido.

Sobre mim, havia uma varanda. Se eu chegasse até ela, a uns três metros acima, poderia ver as cenas finais (ou iniciais, já que depois disto, tudo prometia piorar muito). Pela parede, uma trepadeira, agarrada a uma grade de madeira, ascendia. Este seria o meio mais fácil para subir até a varanda.

Escalei, acompanhado por sons de tiros, vindos do interior da mansão.

Assim que cheguei lá em cima, a porta com veneziana da varanda foi aberta. Encolhi-me entre a porta e a parede; pela fresta da veneziana, distingui dois homens. Pelas vozes, eram Giuseppe e seu irmão, Salvatore.

Não falo italiano, se estivesse em Roma e fosse obrigado a pedir uma pizza, acho que até assim me enrolaria, mas havia uma herança consangüínea, desde meus primeiros anos de infância, ouvindo o nonno e a nonna conversando, internalizei algumas frases, algumas palavras; eu não saberia dizê-las, mas as identificava assim que as ouvia.

Desesperado, Giuseppe perguntou, em italiano, ao irmão:

— O que fazemos?

— Vou pular. Se estiver seguro, você vem.

— Como tudo isto foi acontecer, Salvatore?

— Vamos descobrir... assim que sairmos desta.

Salvatore passou as pernas por sobre o parapeito da varanda e se soltou. Os sapatos deles desabaram no chão, Salvatore gemeu.

— Venha, Giuseppe! Eles estão subindo!

Giuseppe repetiu os primeiros movimentos do irmão, foi então que percebi o ridículo do chefão da máfia, peito nu, vestindo apenas ceroulas. Quando ele estava se equilibrando sobre o parapeito, de dentro do quarto, alguém gritou:

— Palado aí!

Giuseppe Carregno voltou a cabeça para ver quem o chamava, porém, ao invés de olhar para o chinês, que provavelmente lhe apontava uma metralhadora, os olhos de Giuseppe encontraram os meus, semi-ocultos na penumbra. Uma expressão de incompreensão brotou na face do mafioso, eu quase podia ler seus pensamentos, algo como: “O que diabos você está fazendo aqui?”. A boca de Giuseppe se entreabriu, no limiar da pronúncia duma exclamação, duma interrogação, mas a posição delicada na qual ele se encontrava, dividido entre o olhar dum detetive, a mira duma metralhadora e os três metros entre a varanda e o chão, não lhe permitia profundas reflexões filosóficas. Giuseppe prosseguiu em seu movimento de salto, mas o grito reiterou:

— Palado, aí!

Giuseppe Carregno não obedeceu.

Saltou.

Porém, foi alvejado por vários disparos antes que desaparecesse da mira do chinês.

Um corpo tombou no quintal.

Lá embaixo, Salvatore berrou toda sua dor, diante do irmão baleado.

Retornar ao Capítulo 24 <<===>> Avançar para o Capítulo 26

terça-feira, 26 de junho de 2007

Capítulo 24

0 comentários

O ataque relâmpago dos chineses

Emprestei o automóvel da Rose; se eu chegasse na frente da mansão de Giuseppe Carregno com meu próprio carro, na hora eles me reconheceriam.

Vinny havia me instruído a nunca me dirigir a Giuseppe, mas, se eu quisesse saber a razão por que eles me queriam morto, eu teria de contrariar esta orientação; afinal de contas, para eles, eu já estava morto mesmo!

Bastaria esperar que Vinny e seus capangas deixassem a mansão (eu podia ver os veículos deles estacionados diante do casarão), pular o muro e pegar o chefão de pijamas. Sem seus seguranças por perto, desarmado, todo homem vira uma mocinha, até mesmo Don Carregno. Então, tiraria tudo a limpo.

Aguardei...

Por volta da meia-noite, Vinny e seus soldados deixaram o casarão e entraram nos carros. Um dos mafiosos desceu até o alto portão de entrada, abriu-o e aguardou até que os automóveis passassem, depois o fechou e, saltando para dentro do carro em movimento, embarcou.

Arrancando os pneus, eles desapareceram. Pareciam estar com pressa. Talvez estivessem indo jogar no mar algum outro enxerido linguarudo.

Após me certificar de que ninguém estava vigiando, saí do carro e corri até o muro do casarão; com bastante dificuldade, escalei a parede e alcancei o outro lado.

Na mansão de Carregno, as luzes se apagaram; estavam indo dormir. Parei diante da primeira janela, da biblioteca, luzes apagadas, o mesmo ambiente no qual me encontrei com Carregno pela primeira vez, bem perto da janela, o tabuleiro de xadrez.

Foi quando ouvi um barulho, como um acidente de carro. Vinha do portão da mansão. Avistei um caminhão, daqueles com escavadeira na frente para remover neve das ruas no inverno, vindo em direção à casa; havia derrubado o portão, e era secundado por outros cinco automóveis.

Eram chineses!

Eu nunca tive ilusões quanto a isto; a guerra entre chineses e italianos era iminente e tiraria muitas vidas, de ambos os lados, mas jamais pensei que a máfia chinesa seria capaz dum ato tão direto e brutal. Eles deviam estar realmente furiosos com o roubo do ópio e, com a informação que obtiveram de mim, sabiam exatamente onde encontrar o responsável.

Curiosamente, vieram no preciso momento em que Carregno parecia estar desprotegido; não fazia vinte minutos que o grupo de Vinny havia deixado o local e, se Carregno estivesse sendo escoltado agora por cinco homens de confiança, eles não bastariam para protegê-lo.

Os chineses estavam armados e furiosos. Metralharam a porta dianteira da casa e a invadiram. Acompanhei a movimentação no interior dela através da janela e vi quando eles fuzilaram o primeiro dos guarda-costas de Carregno, que estava armado apenas com um revólver.

Enquanto ouvia as rajadas de tiro, circundei a mansão e fui até os fundos, onde havia uma porta de vidro, que dava acesso da casa até o quintal, com piscina, churrasqueira e um jardim. Esta porta translúcida proporcionava uma visão melhor do massacre, já que permitia visualizar a sala de jantar e, através dum largo umbral, o átrio e a porta dianteira.

Com surpreendente estratégia militar, os chineses dominaram o cenário, postaram-se em posições favoráveis e aguardaram a reação dos italianos.

Outro dos guarda-costas desceu pela escada e, logo que foi avistado pelos chineses, foi metralhado, rolando escada abaixo, coberto de sangue.

Ouvi os gritos dos chineses:

— Calegno, desce!

Mas Carregno não descia.

Retornar ao Capítulo 23 <<===>> Avançar para o Capítulo 25