sábado, 2 de junho de 2007

Capítulo 17

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Sessão de tortura chinesa

Já apanhei muito na vida. Provavelmente, apanhei mais do que bati. Na escola, certa vez, chamei o Tonhão, três anos mais velho do que eu, de viado. Aquele filho da mãe, junto com seus amigos, me juntaram a caminho de casa, levaram-me para um terreno baldio e me bateram. Só desistiram quando eu desmaiei. Após me recuperar, pensei que meu pai me defenderia, iria atrás dos pivetes e vingaria a ofensa a mim. Que nada!

— Seu pirralho, só me envergonha com sua bichice!

Quer diz, agora era eu quem era bicha? Tinha apenas onze anos, encarando meninos de quartoze, um contra seis, e era eu o covarde?

Não adiantou, depois de apanhar dos meninos, apanhei também do meu pai. O que aconteceu com Tonhão eu não sei, mas o maldito do meu pai teve o fim que um cachorro como ele merecia: foi pego na cama da mulher dum soldado e levou um tiro de fuzil pelas costas. Minha mãe nos contou que papai havia morrido na guerra, para não diminuir o respeito que deveríamos ter por ele. Mas que tipo de respeito um sujeito como ele merecia?

Mas os chineses estavam dispostos a me fazer esquecer de todas as grandes surras anteriores.

Eles amarram meus pulsos sobre minha cabeça, quase me suspendendo no ar. Minha única sustentação, além da corda atada nas mãos erguendo-me, era as pontas dos pés. Nesta posição delicada, praticamente um saco de pancada humano, os chineses me humilharam de todos os modos que conheciam.

Despiram-me, deram-me choque nas genitálias, chutavam-me e me esmurravam, recebi pauladas nos intestinos (as conseqüências disto você deve bem saber, minha sorte era que estava nu, assim, não cagaria nas calças) e jogavam água gelada na minha cara.

Toda vez que eu desmaiava, e foram muitas, eles me desamarravam e aguardavam até que eu me recompusesse.

Então, tudo recomeçava.

Sem o menor aviso, a tortura acabou. Meus verdugos partiram, deixando sozinho, amarrado, dependurado, naquele galpão gélido. Eu tremia, meus testículos doíam, minhas pernas fraquejavam. Talvez tenham sido horas naquela posição, agonizando.

Mas os desgraçados retornaram. Em maior número e armados. Reconheci Liang entre eles.

Eles se aproximaram de mim. Um dos chineses, mais velho, óculos escuros e terno, perguntou algo a Liang:

— É ele? — supus que fosse a pergunta.

— Sim. É o este o homem que veio falar comigo. — é o que Liang deve ter respondido.

Então, este chinês mais velho ordenou a outro, então, que me interrogasse.

— Quem te contlatou?

Eu já estava tão aquebrantado, que sequer considerei as implicações da minha resposta. Quase chorando, eu confessei:

— Foi Giuseppe Carregno! Foi ele quem me contratou para descobrir quando chegaria o carregamento de ópio.

A expressão do velho chinês se modificou e, se ele não estivesse usando óculos, imagino que deveria haver ódio no olhar. Ele se virou e desapareceu do galpão com seus seguranças.

Pensei que agora eles me matariam, afinal de contas, já haviam sido tantas as atrocidades que me dar um tiro na cabeça seria um alívio. Mas não, o chinês que me serviu de intérprete deu uma ordem e seus homens me desamarraram. Em seguida, jogaram sobre mim minhas roupas e estes também sumiram.

Chorei como uma criança, talvez como quando eu tinha onze anos e levei aquela sova de Tonhão. Depois, entendi o porquê de eles terem me liberado.

Eles deixariam o privilégio de me matar para os italianos e, pelo que tudo indicava, a vingança deles seria bem pior do que qualquer tortura chinesa.

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terça-feira, 29 de maio de 2007

Capítulo 16

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Vico encurralado em seu escritório

Só tive tempo de enfiar a mão na valise, catar o meu revólver e mergulhar em direção ao banheiro, quando as balas pipocaram em meu escritório atravessando a porta.

Se eu tivesse tempo, certamente refletiria sobre esta misteriosa relação entre eu, os chineses e um banheiro, mas, naquele momento, eu tinha mais era que pensar em como sair vivo de mais esta.

Os chineses gritavam, atiravam e gritavam, gritavam e atiravam.

Efetuei um disparo com meu revólver, e recebi cinqüenta outros das metralhadoras dos chinas.

Que mundo era este em que vivíamos, quando homens decentes tinham no máximo um mísero revolverzinho e os bandidos andavam com o que havia de melhor e mais mortífero?

Dei outro tiro, obtendo a mesma resposta dos inimigos. A gritaria na porta continuava.

Ao contrário do banheiro de Liang, não havia possibilidade de sair pela janelinha do banheiro do escritório, tanto pelo tamanho quanto pela altura. Meu escritório era no segundo andar e, mesmo que eu passasse por aquele retângulo de 50X20, me estrebucharia no asfalto. A minha única opção, neste caso, seria sair pela janela do escritório e descer pela escada de incêndio, já que, pela porta, seria impossível, com todos aqueles chineses loucos para me esburacarem.

Eles gritavam, deveriam estar decidindo quem seria o primeiro a entrar, espiei, mas não consegui ver nada, pois logo veio a fuzilaria. Voltei para minha proteção. Eu precisava criar alguma distração, algo que me desse tempo para precipitar-me janela afora e fugir.

Não podia divagar muito, tinha de ser algo prático e eficiente. Fui até o armário sobre a pia e encontrei um desodorante e perfume. Os frascos estavam cheios, boa explicação para minha sovaqueira usual.

Retirei minha camisa, amarrei parte dela no desentupidor de privada, e a embebi em desodorante. Com meu isqueiro, ateei fogo à peça que quase instantaneamente se incendiou. Uma bandeira flamejante.

Por sua vez, o frasco de perfume voou de minhas mãos, indo se estilhaçar no batente da porta de entrada. Os chineses retrucaram com metralhadas, mas me escondi. Quando eles deram uma trégua, arremessei meu coquetel molotov improvisado em direção à porta e a camisa em chamas, em contato com a porta embebida em perfume de quinta, criou um efeito semelhante àquelas rodas de fogo que vemos em circos, pelas quais pobres leões são obrigados a saltar. Os chineses gritavam, desorientados.

Foi a minha oportunidade para escapar; enrolei uma toalha fedida no antebraço e avancei em direção à janela. Os chineses, por entre a porta flamejante, me viram e dispararam a esmo. Para minha sorte, eles tinham péssima mira e não me atingiram. Atravessei o vidro da janela, meu braço protegido dos cacos pela toalha e caí de boca contra a escada de incêndio. Desci por ela quase rolando, ouvindo disparos sobre mim. Os leões haviam atravessado a roda de fogo.

Desci a escada, para poder, enfim, chegar ao térreo. Descia com pressa. Quando toquei os pés no chão, levei uma coronhada na têmpora que me fez desmaiar.

Eles haviam me pegado.

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