sexta-feira, 20 de abril de 2007

Capítulo 7

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Vico cara-a-cara com Don Carregno


Um capanga abriu a porta e entrei numa biblioteca. Salvatore estava sentando numa poltrona, fumando, de pé, atrás dele, estava Domenico; ambos me olhavam com frieza. À minha direita, no final da sala, perto duma janela, estava Don Carregno, diante dum tabuleiro de xadrez. Fiz menção de seguir em direção de Carregno, mas Salvatore me perguntou:

— O que você quer, detetive?

— Estou fazendo algo que creio ser do interesse de Giuseppe Carregno. — respondi, sem tirar os olhos do distante chefão.


— E o que você pode nos ofertar que nós não tenhamos condições de conseguir por nós mesmos? — desta vez, quem perguntou, foi Domenico.

— É isto que quero descobrir. Não sei se vocês também estão investigando a morte de Silvana. Se estiverem, poderemos trocar as informações que possuímos e avançarmos na solução deste caso.

— Não temos interessem em sua invest... — mas Salvatore foi interrompido por um pigarro de Don Carregno.

— Venha cá. — o mafioso fez um sinal para mim, apontando a cadeira em frente dele, do outro lado do tabuleiro.

— Obrigado, mas não quero me sentar. — respondi, enquanto me aproximava.

— Não me faça repetir a ordem. — Carregno observava as peças, num jogo já iniciado.

Sentei-me.

— Você joga xadrez, detetive?

Eu não diria a Carregno que, para mim, xadrez era diversão de viados.

— Não, não jogo.

— Você não sabe o que perde, detetive. Aprende-se muito com o xadrez. É um jogo traiçoeiro... — ele me fitou.

— Ah é? — eu não estava muito interessado em considerações enxadrísticas, mas também não pretendia irritar Carregno.

— Sim. O jogador que está com as brancas sempre começa em vantagem. É ele quem dita o ritmo do jogo, no começo. Às vezes, ele cria uma estratégia num dos flancos do tabuleiro, dando a entender que atacará por aquele lado, mas, quando menos se espera, ele encontra as fraquezas do oponente no outro lado e desestabiliza o jogo do adversário.

— Mas isto não é injusto? As brancas sempre têm a vantagem.

— Se nós, humanos, nunca errássemos, seria injusto. Porém, sempre cometemos algum deslize, então, o jogo se inverte, quem estava perdendo passa a ganhar, tudo se torna imprevisível.

— Assim é a vida... — respondi, entendiado.

— Silvana era uma boa moça. Fazia algumas besteiras, mas era uma boa moça. Eu adoraria botar a mão no disgraziato que a matou.

— Você também acredita que ela tenha sido assassinada? — a observação de Carregno atiçou meu instinto.

— Que mais poderia ter sido? Nada é por acaso, detetive.

Fomos interrompidos com a entrada de alguém na biblioteca. Era Viccenzo.

— Preciso falar com o senhor, tio. — Viccenzo resmungou.

— Um momento, Vinny. Este detetive está tentando descobrir quem matou Silvana. — Don Carregno comentou.

— Ah, é? — Vinny não parecia estar surpreso — Estamos torcendo para que sua investigação nos leve ao culpado.

— Silvana era quase uma irmã para o coitadinho. Um grande enxadrista ele... — Carregno me disse, quase sussurrando. — Quando você solucionar este caso, detetive, volte a falar comigo. Faço questão de cuidar para que o culpado seja punido.

Sai do covil de Carregno com um sentimento dúbio. Talvez, se eu o houvesse conhecido num bar, bebendo uísque e conversando sobre assuntos frívolos, jamais sustentaria uma má impressão dele. Carregno era calmo, ponderado, mas, mesmo assim, em seu olhar, havia uma vivacidade, uma paixão típica dos latinos. Eu não poderia confiar nele, mas não me parecia que ele tinha algum motivo para matar a amante. Quando falou em Silvana, havia ternura na voz. E se o que ele me disse era verdade, eu já possuía uma explicação para a presença de Viccenzo, Vinny como ele o havia chamado, no cemitério. Além disto, agora, eu havia me exposto de fato. Eles sabiam que eu sabia, se houvesse represálias, é porque eles tinham o rabo preso.

Retornei ao escritório e me deitei no sofá. Estava precisando de descanso. Porém, poucos instantes após haver fechado os olhos (ou poderia ter sido muito tempo, pois acordei um pouco babado), bateram na porta.

Quando me recompus, havia três pessoas na saleta semi-obscurecida pela penumbra, dois grandalhões com metralhadores a tiracolo, e Vinny, cigarro balançando na boca, uma pasta na mão.

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