sexta-feira, 23 de março de 2007

Capítulo 3

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A polícia aparece no escritório de Vico. Acusações e suspeita.


Fui despertado por batidas na porta. Através do vidro, duas cabeças enchapeladas aguardavam uma resposta.
— Só um minuto! — gritei, levantando-me num pulo, escondendo as garrafas vazias nas gavetas, jogando as cuecas sujas embaixo do sofá, limpando as remelas e colocando também meu chapéu, para esconder os cabelos despenteados.
Destranquei a porta e recebi os dois policiais em meu escritório.
— Sentem-se — apontei-lhes o sofá, no qual havia gravado o sulco do meu corpo.
— É uma visita rápida, Vico — um dos policiais resmungou, acendendo um cigarro. Estendeu a cigarreira para mim e aceitei um. Eles se apresentaram: detetive Soares, baixinho, óculos e terno bem asseado, o bom policial, e detetive Camacho, mal-encarado, truculento, barba por fazer, quem me cedeu um cigarro, o policial mau.
— Acredito... — respondi. Olhei para meu relógio — O que os traz aqui tão cedo?
Detetive Soares me passou um envelope. Dentro dele, três fotos. Fotos do cadáver de Silvana. A primeira, dela deitada de bruços, como, provavelmente, a polícia deve tê-la encontrado na cama do hotel, a segunda, frontal, corpo inteiro, da moça pálida e nua, a terceira, somente do rosto.
Os policiais me observavam, cuidando alguma reação que me denunciasse. Mas sou bom em dissimular emoções. Fingi indiferença.
— Você a conhecia? — Camacho me perguntou.
— Sim. Silvana.
— Nós a encontramos morta, hoje de manhã, superdose de remédios psiquiátricos.
— Suicídio? — perguntei.
— Quem sabe? Suicídio ou simplesmente excesso... — Soares respondeu.
— Isto é terrível — resmunguei, e não era mentira, a mentira era eu encenando estar surpreso.
— Qual foi a última vez que você a viu? — Soares me olhou por sobre os óculos.
— Acho que uns quatro ou cinco anos atrás...

A minha resposta inquietou Camacho, que cruzou os braços e soltou uma baforada de fumaça para cima.

— E quando foi a última vez que você conversou com ela? — Soares prosseguiu.

— Ontem à noite. Ela disse que precisava de minha ajuda.

— Então, você não a viu antes dela morrer? — Camacho pôs as duas mãos sobre o tampo da mesa e me fulminou com o olhar.

— Já disse que não.

Camacho retirou do bolso do casaco um bloco de notas, folheou-o e leu uma das entradas.

— “Por volta das duas e quarenta, o recepcionista do hotel viu um senhor descendo as escadas e correndo porta afora...”, há uma longa descrição deste senhor aqui. O recepcionista é um rapaz observador, e minha intuição me diz que quem estava saindo daquele hotel era você.

— Sua intuição? — ri. — Eu achei que a polícia investigasse os casos, não intuíssem quais são as pistas e as soluções. E se sua intuição estiver errada? Existem centenas de milhares de pessoas que poderiam se enquadrar na minha descrição.

— Na verdade, não precisamos da intuição do detetive Camacho para sabermos que era você, ontem à noite. — Soares me interrompeu.

— Ah não? — eles estavam começando a me irritar. Estava claro que eles possuíam uma evidência, senão nunca teriam perdido o tempo vindo até meu escritório.

— Às duas horas e sete minutos, a senhorita Silvana solicitou à recepção do hotel que realizasse um telefonema. Adivinhe para quem?

— Por acaso vocês são estúpidos? — perguntei. Camacho e Soares arregalaram os olhos. — Eu já lhes disse que ela me ligou, precisava de minha ajuda.

— E você foi até lá? — Soares inquiriu. Camacho estava enfurecido, calado, tentando se controlar.

— Sim. Ela estava com medo. Fui até o hotel, mas não a encontrei.

— Ela não estava no quarto?

— Não sei dizer. Bati, mas ela não respondeu.

— Possivelmente, porque você já a havia assassinado. — Camacho concluiu.

— Achei que vocês houvessem me dito que ela havia se suicidado. Agora se tornou homicídio?

— Não falamos em suicídio, você sim. Dissemos que havia sido uma superdose.

— Quer dizer que sou um suspeito? Há uma acusação formal contra mim?

— Se for um homicídio, Vico, você é o suspeito. E, quanto a acusação, por enquanto só estamos averiguando os fatos.

Aquilo era ridículo! Aqueles dois bananas estavam realmente me tirando o bom humor.

— Desde quando você a conhecia? — Soares perguntou, sem olhar para mim, enquanto perambulava pelo escritório.

— Eu a vi pela primeira vez acho que uns cinco anos atrás. Ela era stripper numa boate na cidade baixa, Absinto.

— Foi quando vocês se tornaram amigos?

— Amigos? Não! Eu dei uma gorjeta boa para a moça, ela me fez um belo boquete no banheiro, saímos algumas vezes, conversamos, mas ela se afundou na cocaína e paramos de nos ver. Estava andando com companhias barras-pesadas.

— E você não a viu mais, desde então?

Eles estavam me fazendo perder tempo com esta ladainha:

— Não. É só isto ou posso ajudá-los em mais alguma coisa? — levantei-me e fui encaminhando-os para a porta.

— Nós o procuraremos novamente. E, se você possuir alguma outra informação, pode nos contatar. — Soares me entregou um cartão, mas eu me recusei a pegá-lo.

— Sei onde encontrá-los. Mas tudo que eu tinha para dizer, já disse. Tenham um bom dia.

Bati a porta após eles terem partido.

Aqueles imbecis estavam tateando nos escuro. Eles não tinham a menor idéia de por onde começar, por isto, vieram para o lado mais fraco. Seria fácil incriminar um pobre coitado como eu, apenas para satisfazer Carragno. Eles me fariam de bode expiatório?

Se eles queriam roer este osso duro aqui, precisariam de dentes muito fortes!

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