sexta-feira, 16 de março de 2007

Capítulo 2

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Vico encontra um cadáver e toma uma decisão.

No corpo daquele mulherão havia vários hematomas, impossível distinguir se eram conseqüências da violência de seus amantes ou se eram resultado de práticas sado-masoquistas, das quais Silvana era uma curiosa adepta. Lembro-me que ela bem que quis me dar umas palmadas, na última vez que nos encontramos, mas porrada, para mim, só se for realmente inevitável. Não apanho por prazer.

O vestido dela estava jogado sobre o espaldar duma cadeira e, no assento, suas jóias e bolsa. Na cabeceira da cama, dois frascos vazios de remédio, um para dormir, o outro antidepressivo, alguns comprimidos espalhados por ali. Na embalagem, o nome do psiquiatra que lhe prescreveu os remédios, Dr. Luiz Frischenbauer. Obviamente, quem a assassinou pretendia dar a impressão de suicídio. Mas para quem estava apavorada com a morte, Silvana não tinha o perfil duma suicida. Não havia indícios de violência, nem ferimentos — excetuando os antigos hematomas — que pudessem evidenciar morte por trauma; na verdade, Silvana parecia estar dormindo, nua, linda e loura.

Revirei a pequena bolsa da moça, mas não encontrei nada de interesse: objetos pessoais, maquilagem, preservativos. O que possuía valor deveria estar naquele embrulho que ela deixou comigo, mas isto seria algo que eu só poderia verificar quando retornasse ao escritório.

Com meu lenço, limpei minhas impressões digitais de todos os objetos que eu havia tocado — a maçaneta, a bolsa, os frascos de remédio. Não resisti e, antes de deixar o cadáver para ser descoberto pela polícia, dei um beijo na testa da Silvana.

— Vou descobrir quem fez isto com você, menina. — sussurrei. Poucas horas atrás, ela havia confiado em mim e me procurado. Eu a decepcionei, abandonei-a para morrer; descobrir o culpado era o mínimo que eu poderia fazer em memória da Silvana.

Sai e fechei a porta. Quando deixei o elevador, fui flagrado pelo olhar do recepcionista. Baixei a aba do chapéu e me esgueirei para fora do hotel. Amanhã, eu procuraria pelo nome de Silvana no jornal, na seção de homicídios.

Ao chegar no escritório, fui direto à gaveta onde havia guardado o embrulho. Rasguei o invólucro e retirei a pequena caderneta nele contida. A rápida folheada não me esclareceu muita coisa. Números, apenas números. O cansaço me impedia de raciocinar e encontrar alguma lógica naqueles algarismos. Não podia supor que fosse alguma mensagem criptografada, Silvana não era tão inteligente assim. Talvez fossem balancetes, algo envolvendo dinheiro, ou quantidades, ou outros dados quantitativos. Guardei novamente a caderneta na gaveta, acendi um cigarro e tomei um gole de conhaque. Meus olhos estavam pesados, e uma dor na alma finalmente anunciava que Silvana estava morta. É curioso como levamos algum tempo para associarmos uma perda com a realidade. Não a via há anos, não éramos muito chegados, porém, a sensação que me tomou era a de haver perdido um ente muito querido. Silvana não fazia, nem nunca fez, parte da minha vida, mas era como quando minha mãe morreu. Atribui esta fraqueza minha a pobre condição pela qual passava. Eu estava fragilizado, no fundo do poço, sem amor, — não direi sem futuro, pois nunca tive um — assim, a visita de uma bela mulher abala tudo, e vê-la morta, horas depois, é um choque ainda maior.

Abracei-me à garrafa e me deitei no sofá. Dormi, embriagando-me. Amanhã, eu partiria em busca por respostas; hoje, só quero dormir.

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