terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Diário Vermelho (Conto)

Um crime contra a liberdade de expressão

Eu não tenho muita gratidão com aqueles que me criaram. Meu pai, negligente, minha mãe, submissa. Não foram os pais exemplares, mas eu também não fui um filho exemplar, então, estamos quites.

No entanto, compadeci-me diante do choro duma mãe angustiada. O filho de Maria estava desaparecido há mais de dois meses, e ela não tinha notícias sobre o paradeiro dele, se vivia, ou se estava morto.
Só que ela sabia quem eram os responsáveis pelo sumiço do rapaz e por qual motivo.
Edgar era jornalista dum folhetim de orientação esquerdista (para não dizer comunista), sob pseudônimos, criticava duramente as práticas militares, satirizava o “Braço Forte” dos milicos. Tudo estava ótimo, enquanto protegido pelo anonimato.
Mas um delator revelou o nome do editor do jornaleco, que, por sua vez, sob tortura, deu com a língua nos dentes e entregou todos seus colaboradores. Numa abominosa noite, quinze pessoas, de jornalista a contínuo, foram arrancadas, a bordoadas, de suas casas e conduzidas aos porões do Exército.
Esta foi a última vez que Maria viu seu Edgar, olhos esbugalhados, gritando por piedade, sendo arrastado pelos cabelos por homens fardados. Em tantos anos de viuvez, esta foi a única ocasião em que Maria se alegrou por Timóteo, capitão galardoado da Aeronáutica, não estar presente para ver seu filho vítima da intolerância.
— De quem você suspeita? — indaguei e, sem hesitação, sem dúvida alguma, Maria respondeu.
— Do Coronel Castro e Silva.

Tocaiei o coronel por dois ou três dias, mas seria impossível me aproximar dele, sempre fortemente escoltado. Resolvi que teria de começar por baixo, procurando os milicos que perpetraram o crime, se eu conseguisse derrubá-los, talvez o cabeça também rolasse, mas, partir de cima, seria um objetivo inalcançável.

Voltei a conversar com Maria, tentar fazê-la se lembrar do nome ou das feições de algum dos soldados que invadiram sua casa, mas a memória dela estava enuviada pela terrível experiência.
Obtive os endereços dos outros quatorze desaparecidos e realizei a via crucis de conversar com cada um dos parentes. Alguns se recusaram a falar, evidentemente aterrorizados, talvez até por causa de ameaças; outros, forneceram poucas, mas valiosas informações. Cheguei a três nomes consensuais: sargento Brandão, cabo Pires e soldado Tíbuli.

Seguindo meu plano, que era começar pelo mais baixo na hierarquia, passei a investigar Tíbuli. Não foi difícil encontrá-lo, qualquer o conhecia na região do quartel, era benquisto e simpático, pelo que diziam. Ele morava num bairro pobre, era jovem e tinha uma esposa mais jovem ainda, barriga roliça quase pronta para trazer ao mundo um Tibulizinho. O rapazola acordava cedo e se encaminhava ao quartel. Ao fim do dia, voltava para casa, jantava assistindo TV e dormia cedo, possivelmente arrebentado por causa da rotina militar.
Mudei o foco para o cabo Pires. Este morava com os pais, no segundo andar dum sobrado. Tinha uma rotina semelhante a Tíbuli, excetuando que, à noite, ele saía para a farra com os amigos, todos milicos.
Freqüentavam um arrasta-pé no Bairro Novo, onde sempre alguém acabava baleado. Numa destas noitadas, Pires se engraçou com uma negrinha, mas o irmão dela não gostou e foi tirar satisfações. Pires se ofendeu, sacou a pistola e, sem pudor algum, berrou:
— Já tenho doze mortes nas costas, quer ser mais um na conta? — o irmão da moça saiu de mansinho, deixando-a para as apalpadelas do cabo Pires.
Eu não tinha motivos para duvidar desta asserção do militar, por isto, fechei o cerco sobre ele. Numa das folias noturnas, aproveitei para entrar no quarto de Pires e fuçar suas coisas, não encontrei nada que o incriminasse, mas não desanimei. Permaneci no encalço dele.

Pires e sua turma rumavam ao Bairro Novo, eu dirigia atrás. Sem aviso, o carro deles freou; fiz o mesmo, fritando os pneus e quase me chocando com o veículo à frente. Senti, então, o impacto vindo de trás, um outro carro não conseguiu frear e me ensanduichou contra o automóvel de Pires. Pensei ter sido um acidente, eu estava sangrando, mas nenhum ferimento grave. Porém, quando os rapazes saltaram dos veículos à minha frente e atrás, percebi que eu havia caído numa armadilha.
Pires abriu a porta do meu carro, pistola em mão, e me arrancou para fora.
— Por que você está me seguindo, seu corno? — ele socou a arma na minha boca.
Resmunguei.
— O quê? — Pires desrecheou minha boca.
— Eu disse que não posso explicar nada com você enfiando um revólver na minha boca — zombei.
Pires me pisou a cabeça contra o aslfato.
— É um engraçadinho! Pelo jeito, vou apagar um palhaço hoje.

Eles me amarraram a uma árvore e, até o nascer do sol, me esmurraram e repetiram a pergunta:
— Por que você está me seguindo, seu corno?
No princípio, permaneci calado, agüentando estoicamente as porradas, mas, depois, simulando haver entregado os pontos, revelei ser um jornalista investigando o desaparecimento da equipe de “O Diário Vermelho”.
— Puta que pariu! É amigo daquela turma! — um deles deixou escapar.
— Como é que você chegou na gente? — outro questionou, voz vacilante.
— Uma fonte me disse que vocês estavam de serviço no dia em que os repórteres desapareceram. Pensei que talvez vocês pudessem me dar alguma informação. Nunca imaginei que fosse apanhar tanto por causa duma matéria... — fiz-me de coitado e desentendido.
Todos riram, como seu eu os houvesse aliviado dum peso enorme.
— É um otário! — Pires concluiu — Deixa ele amarrado aí, para servir-lhe de lição.

Debati-me por horas, até que conseguir alcançar meu canivete no bolso da calça e me libertei das cordas. Mas agora eu já possuía duas certezas: Pires sabia que eu o estava seguindo; e eu já tinha certeza de que ele e os amigos estavam com os rabos mais do que presos.
Além disto, percebi que precisaria de ajuda. Liguei para Maria e avisei que o serviço ficaria mais caro do que o planejado, mas ela me deu carta branca para fazer o que fosse necessário.

Carlão e Trancoso era irmãos, sócios duma empresa de segurança. Contratavam leões-de-chácara para boates e capangas para milionários.
— Disponibilizaremos nossos melhores homens — eles me garantiram.
— Preciso de homens de confiança, vocês dois me bastam — retruquei.
Eles me asseguraram que não faziam mais trabalho pesado, que agora “só gerenciavam o negócio”, mas eles me deviam um favorzão, dívida pelos velhos e bons tempos, e acabaram concordando.
— Mas só porque é você, Vico, se fosse outro, a gente batia o pé e era não.

Pegamos o pobre Tíbuli quando ele voltava do quartel, encapuzamo-lo e o metemos no porta-malas do carro. Depois, foi a vez de Pires. Molhamos a mão duma puta, que o atraiu para fora do arrasta-pé e, num barranco, enchemos o cabo de porradas e o jogamos na traseira para fazer companhia a Tíbuli.
Levamo-los para um galpão abandonado e foi a nossa vez de atuarmos como verdugos. Pires resistia, mas, após alguns safanões, Tíbuli abriu o bico:
— Eu não queria matar aquelas pessoas! Eu não queria! — chorava feito uma maricas — Foram ordens!
Ele revelou, então, que quem comandou a operação havia sido o sargento Brandão, sob ordens diretas do Coronel Castro e Silva.
— E onde os corpos foram enterrados? — perguntei.
Mas Tíbuli não sabia, alegava que sepultá-los havia sido incumbência do cabo Pires.
Como o colega já havia entregado tudo, Pires não via mais razão para ficar apanhando calado.
Prometeu nos mostrar as covas, numa fazenda a quilômetros da cidade.

Os dois milicos passaram à noite abrindo a enorme vala comum, iluminados apenas pelos faróis do automóvel. Os corpos já estavam em avançado estágio de decomposição, mas ainda seria possível reconhecê-los.
Deixei Carlão e Trancoso cuidando dos assassinos e dirigi até um posto de gasolina, de onde liguei para Maria, avisando que, infelizmente, havíamos encontrado o filho dela, e fiz uma segunda ligação, ciente de que era este o único modo de atingir a alta cúpula do Exército.

Nas primeiras páginas dos maiores jornais do país estava estampada uma foto enorme de Maria, ajoelhada ao lado do cadáver do filho, chorando. Dois dos assassinos estavam amarrados e amordaçados, logo ao lado da vala comum. Os jornais se questionavam sobre quem seriam “os vingadores misteriosos” que solucionaram este massacre e apresentavam os nomes de vários outros suspeitos, incluindo o sargento Brandão e o coronel Castro e Silva.
A primeira peça a cair foi Brandão, indiciado por múltiplos homicídios; os outros perpetradores do crime foram exonerados e julgados por júri popular; coronel Castro e Silva foi rebaixado e enviado para assumir um cargo no interior, mas logo o caso foi abafado e esquecido.

Alguém bateu à porta do meu escritório e mandei entrar. Ao ver a figura, logo a reconheci, apesar de apenas tê-la visto nas manchetes.
— Você é o detetive Vico? — o visitante perguntou, mas eu só traguei meu cigarro e sorri — Estamos de olho em você, seu desgraçado. Sua hora vai chegar! Vai ter paga! — e partiu.

“Vai ter paga!”, quantas vezes não ouvi isto?
— Estarei esperando... — sussurrei, espiando, pela persiana, Castro e Silva sumindo num carro de luxo.

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