sábado, 28 de julho de 2007

Pós-escrito a "O Covil dos Inocentes"

Não deve existir nada mais deprimente para um escritor do que ser rotulado: escritor de ficção científica, de livros de fantasia, de romances históricos, contista, ou escritor erótico.

Deprimente por duas razões: primeiro, porque este rótulo obriga o escritor a se repetir, a sempre suprir o mercado e os leitores com o que eles esperam; segundo, porque o verdadeiro escritor é aquele capaz de escrever qualquer gênero, em qualquer forma, sobre qualquer assunto.

O escritor é o senhor de seu mundo. No interior do texto que redige, é ele quem dita as regras e, se por qualquer razão, ele decidir abolir a Lei da Gravidade, imediatamente ela está suspensa. O universo que ele cria na obra literária pode ser um reflexo da sociedade e da realidade, mas também pode prescindir dela, adulterá-la, distorcê-la. Se o escritor é onipotente em se tratando da composição da obra, por que, então, ele é tão dependente quando se trata de se enquadrar num gênero?

Todos escrevemos sobre o que nos agrada, naturalmente, nós nos inclinamos a contar histórias semelhantes àquelas que nos encantaram na infância. Quantos autores de ficção científica não foram seduzidos pelas lutas espaciais de “A Guerra nas Estrelas”, ou se amedrontaram com o alienígena se esgueirando pelos tubos de ventilação em “Alien, o Oitavo Passageiro”, ou não admiraram o mundo decadente e sombrio, povoado de andróides em “Blade Runner”?

Por causa desta influência, parasitaram elementos, possivelmente sem grau algum de originalidade, até que, em algum momento, encontraram sua voz, os temas que lhe interessavam, aquele elemento único, a sua impressão digital literária.

E isto vale para todos os gêneros, para os leitores de Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, de Edgar Allan Poe e Stephen King, de John Grisham, de Balzac ou Proust, de Tolkien ou Rowling, de Tom Clancy.

Sobre um escritor famoso há uma pressão muito maior, ele já possui seu público leitor, já possui um conjunto de obras que definiram sua orientação; porém, que tipo de entrave há para o escritor não-publicado, qual leitor o renegará se ele se contradisser, escrevendo um texto que não condiga com suas obras anteriores?

Nada impede que um escritor experimente, ouse escrever sobre outros assuntos que lhe interessam e, até mesmo, sobre aqueles que não lhe interessam, pelo puro prazer de aperfeiçoar suas habilidades. Nada impede.

Foi esta constatação que me impeliu à dupla experimentação de “O Covil dos Inocentes”; duplo porque eu estaria escrevendo um gênero que não domino, que não costumo ler e do qual só assisti a poucos filmes, e porque eu publicaria este experimento praticamente em tempo real, com o intervalo de apenas poucos dias entre um capítulo e outro, numa espécie de folhetim dos tempos virtuais.

Eu conhecia as dificuldades e tinha plena consciência dos riscos — desistir na metade do projeto, não ter leitor algum, recair em clichês, em diálogos vazios, em estruturas manjadas, maniqueísmo, personagens sem vida —, mas nem por isto pensei que deveria me encolher diante da idéia.

Alguns dos riscos se cumpriram.

Se eu soubesse de antemão como a história se desenrolaria, provavelmente começaria a história de maneira diferente. Quantas vezes não vimos no cinema um filme de detetive começando num escritório, com uma loira vindo contratar seus serviços?

Centenas! Mas esta é a facilidade do clichê, tanto para o autor quanto para o leitor; para o autor porque pode prescindir de criar algo novo, que choque o leitor por sua estranheza; para o leitor porque o arremessa para o interior do enredo, dando-lhe o aval de que aquela história não o desconfortará, de que ele não encontrará surpresas desagradáveis.

Mas apesar de eventuais deslizes, a história prosseguiu e encontrou termo. Minha primeira narrativa longa de Mistério Noir estava concluída.

Mas isto não basta, há tantos gêneros que gosto e que não escrevo, ou que não gosto e, por isto, não escrevo. E se eu também resolvesse escrevê-los, assim como o fiz com “O Covil dos Inocentes”?

Os riscos anteriores permanecem, as chances de sucesso e fracasso são as mesmas.

A este projeto, que levarei adiante em outras obras publicas na Internet, batizei de “Teste de Gênero”. Ficção Científica, Terror, Romance Romântico, Aventura, Fantasia, Comédia... Nos próximos, com maior ou menor competência, tentarei escrever uma obra destes e outros gêneros, e se conseguir um resultado semelhante ao de “O Covil dos Inocentes”, já posso me considerar satisfeito, pelo menos, já estarei livre de ser rotulado.


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Um comentário:

Raferty disse...

Caro Henry,
O que dizer de sua "declaração"?
Eu diria que o romance acabou. O que há de ser escrito entre o céu e a terra?
Restam-nos as crônicas. Os "causos" só são interessantes como anedotas.
Considerando-se a anedota como forma literária, ela só é interessante pelo desfecho. Eu optei pelo inusitado e não pela dissertação. Nada de novo.
Sigo a máxima de Tchecov. Num conto, mesmo um detalhe inerente ao fato deve ser simplificado.
Eu só um embevecido admirador de quem domina a técnica como voce e tiro meu chapéu à alguns dos desfechos em seus textos. Existe uma originalidade em seu estilo que não deixa sua obra ser considerada déjà vu.
Agora voltarei aos seus textos e muitissimo obrigado pela paciencia e esmiuciamento das barbaridades que escrevo. Abraços