quarta-feira, 25 de julho de 2007

Capítulo 32

Vico cumpre uma promessa. Final.

No dia anterior, eu tive de juntar todas as peças.

Primeiro, terminei de ler o diário de Silvana, que me dava todas as pistas mais importantes, o envolvimento dela com Vinny, como ela o ajudou a sabotar as operações de Giuseppe Carregno e como, depois, arrependida, ela decidiu que contaria tudo a Don Carregno. Não foi difícil deduzir que quem a matara havia sido Vinny, principalmente porque, quando conversei com Carregno, ele parecia claramente abalado com a morte da amante. Realizei, então, a experiência com os comprimidos, matando uma dúzia de pombas inocentes.

Mas, além disto tudo, havia aquela pequena chave, dentro do diário de Silvana, e também aquela caderneta cheia de números que Silvana deixou comigo, na mesma noite em que ela morreu. Relendo agora esta caderneta, na qual havia duas colunas de números, sobre a primeira um C, sobre a segunda um I, algumas coisas começaram a fazer sentido.

Naquela caderneta, Silvana estava anotando o dinheiro que recebia destas duas fontes, o C era de Giuseppe Carregno, o I, de Viccenzo Imbruglia. Para disfarçar, Silvana não indicava nenhum cifrão, nem centavos, eram apenas números, de dois, três, às vezes quatro dígitos. Fiz uma conta superficial, se ela houvesse guardado tudo o que estava contabilizado ali, Silvana deveria ter umas treze ou quatorze mil pratas. Aquela chave podia ser para abrir o cofre ou armário no qual o dinheiro estava. Imaginei que se Silvana havia deixado comigo a caderneta, mas não a chave, isto ocorreu por mero descuido. Ela deveria ter deixado às pressas a mansão de Carregno, e acabou se esquecendo do mais importante. Talvez, até houvesse pensado que a caderneta fosse o diário, já que ambos tinham o mesmo tamanho e eram da mesma cor.

Na última página do diário, grudado com uma fita adesiva, havia um cartão do “Banco Nacional”. Atrás do cartão, um número, 124.

Fui encaminhado ao subsolo pelo atendente. Ele me indicou a localização do cofre cento e vinte e quatro, e depois me mostrou uma cabine onde eu poderia consultar o conteúdo do cofre.

Encaixei a chave de Silvana e a girei no tambor. Dentro do cofre, uma valise. Levei-a até a cabine e abri o zíper, revelando maços de dinheiro e um envelope. Retirei a carta que havia nele.

Papai,

Desculpe-me por todos estes anos que eu o envergonhei. Não direi que você estava certo, porque cada um tem de seguir seu caminho na vida, e este foi o meu.

Juntei algum dinheiro neste tempo, que agora é seu, como paga pelo que fiz.

Tudo que posso fazer é pedir desculpas, mil vezes.

Te amo,

Sil

Fechei o cofre e levei a valise para a casa de Rose.

Foi quando comecei a lutar contra minha própria consciência, ficar ou não ficar com o dinheiro? Havia dezesseis mil e quinhentas pratas naquela mala, somando com o dinheiro que eu havia recebido pelo serviço à máfia, dava para viver bem, sem trabalhar, uns cinco anos. Eu e Rose nos mudaríamos para a praia, bebendo martinis e fazendo sexo o dia inteiro.

Porém, se eu não havia conseguido prender o assassino de Silvana, ao menos alguma coisa eu tinha de fazer pela memória dela.

Após sair do velório de Carregno, fui direto para a rodoviária, Rose me aguardava com a valise, e pegamos um ônibus para o interior, cinco horas de viagem.

No endereço indicado no envelope, encontramos um senhor, na casa dos sessenta anos, simplório, dentes podres, movendo-se com um andador.

— Silvana nos pediu para falar com o senhor — Rose disse, ela era melhor em relacionamentos interpessoais do que eu.

— Se é para falar daquela vadia, perderam seu tempo — o velho, voz de quem fumou quatro quintos de sua existência, resmungou.

— Não viemos para falar dela — eu o interrompi — Trouxemos um presente dela pra você.

A atitude do velho mudou.

— Presente? Até que enfim aquela ingrata se lembrou de mim.

Rose estendeu-lhe a valise, com dez mil paus dentro.

— O que é isto? — o velho perguntou.

— Não sei — eu disse — Veja por si próprio. Está na hora de ir — mas meu lado sádico me forçou a fazer mais uma pergunta — Tem alguma mensagem para Silvana? — Rose me repreendia com o olhar.

O velho pigarreou.

— Fale pra ela que Deus vai julgar os pegados dela no Dia do Julgamento.

— Direi isto a ela.

Que velho estúpido! Esta sua última frase fez com que eu me arrependesse de ter ido até lá. Rose havia me atormentado pelo fato de eu ter subtraído seis mil e quinhentos.

— São negócios, minha querida. Se Silvana estivesse viva, ela também teria de pagar.

Mas agora, conhecendo o canalha hipócrita do pai da morta, refleti que deveria ter ficado com tudo. Bem, a merda já estava feita.

Eu e Rose estávamos saindo de viagem. Nas manchetes do jornal não se falava de outra coisa, Vinny era o novo cabeça da máfia italiana na cidade e, como era de se esperar, havia feito um acordo com a máfia chinesa: os chinas ficariam com o tráfico de drogas e contrabandos, os carcamanos com extorsão, lavagem de dinheiro, roubo de cargas, e assim por diante, ou seja, a tão esperada guerra foi uma armação, nada ocorreu.

Mas, antes de irmos, resolvi dar uma última passada no escritório, ver se eu não havia me esquecido de nada.

Na porta do escritório, perto da maçaneta, estava um bilhete, escrito com batom.

Vico,

Preciso de sua ajuda urgente.

Ligue para mim o mais rápido possível.

Heather

Seguido do número de telefone dela.

Heather era uma dos meus muitos amores do passado, linda, ruiva e dona de pernas estonteantes.

Mas eu estava saindo de férias! Por causa dum pedido de ajuda como este que eu havia me metido em toda esta confusão, Rose estava me esperando lá embaixo, dentro do carro. Esqueça, Vico, esqueça!, eu me repetia.

Porém, desobedecendo a mim mesmo, desci e fiz sinal para que Rose esperasse dentro do carro. Caminhei até uma cabine telefônica, coloquei uma moeda e disquei o número. O telefone estava tocando.

— Por favor, não atenda! Não atenda! — eu sussurrava. Estava ligando apenas para me livrar deste peso; da última vez que ignorei um pedido de ajuda, alguém morreu.

Mas Heather atendeu.

— Que bom que você ligou, Vico! Venha até minha casa, por favor.

Rose acenava para mim do carro, indicando que era para eu me apressar. Estrangulado pela decisão, pensando em que desculpa eu inventaria para convencer Rose a adiarmos nossas férias, respondi.

— Já estou indo.

A cagada estava completa.

Definitivamente, alguns imbecis nunca aprendem.

Nova York, 2007

FIM

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7 comentários:

Thiago Barsotti disse...

Curti muito a história, mas me decepcionei com o final..

Esperava mais.

Abraço

Henry Alfred disse...

Oi, Thiado.

Obrigado por sua visita.

Mas o que o decepcionou especificamente, as conclusões do detetive ou o último capítulo?

Abraços.

Fábio Maia disse...

eu acompanhei esse final só, me ambientei na história ahhahaha mas quero ler desde o começo pra poder falar algo aqui.
: ) valeeeu
obrigado!

Noin disse...

Espero sinceramente que tenha uma continuação! Muito bom, mesmo.

Henry Alfred disse...

Obrigado, Fabio e Noin.

E há uma ligeira previsão para uma segunda e terceira obras com o detetive Vico, mas isto ficará para depois, pois pretendo, nos próximos meses, começar um romance de Fantasia, nos mesmos moldes de "O Covil dos Inocentes". Quer dizer, ainda não defini se será de Fantasia ou Ficção Científica.

Abraços.

Noin disse...

Ficção científica *.* Que perfeito ^^ Estarei aguardando...

silvan disse...

Olá Henry, comecei a ler "O Covil dos Inocentes" logo quando voce comecou a postar no blog, mas fiquei sem acompanhar esse tempo todo e só voltei agora, li o resto hoje, e achei muito bom, principalmente os últimos capítulos e o desfecho. Parabéns.