quinta-feira, 19 de julho de 2007

Capítulo 30

A segunda parte das conclusões de Vico. Ele revela quem é o assassino de Silvana.

— Silvana o amava... — prossegui.

— Sim, ela amava tanta gente. Mas amava acima de tudo o poder, amava dinheiro — Vinny retrucou, olhar baixo.

— Mentira! É o que você pensava dela, mas não é o que ela sentia. Assim que conheceu você, Silvana se apaixonou. Foi por causa do amor que ela agiu como agiu; roubando documentos de Giuseppe Carregno e entregando-os a você; articulando tudo para que você fosse o sucessor do capofamiglia. Mas ela percebeu que não passava duma marionete em suas mãos, uma arma contra o homem que a protegia. Ela podia amar você, mas, antes de tudo, ela devia lealdade a Carregno, foi ele quem a tirou da lama.

— Silvana nunca saiu da lama. Deixou a vida de puta e entrou na vida de amante. Não vejo nenhuma evolução nesta trajetória — a complacência de Vinny estava desaparecendo — Ela era uma vagabunda, vestindo couro, ou vestindo Dior.

— Ela ameaçou contar todas suas tramóias a Carregno, não foi? — perguntei, mordaz. Já tinha a resposta, queria apenas que Vinny confirmasse.

— Sim...

— E por isto, você a matou — concluí.

Vinny se levantou, esmurrou a mesa e enfiou o dedo na minha cara.

— Prove, seu desgraçado! Onde estão as provas?

— Esta era a parte mais difícil, Vinny, eu sei. Eu já tinha um novo suspeito: você; tinha um motivo: a amante decidida a contar para o chefão da máfia que um borra-botas o estava sabotando; mas faltava a arma do crime, não é?

Vinny suava.

— Eu vi o cadáver de Silvana, estirado na cama, comprimidos sobre o criado-mudo. Pensei, a princípio, que ela poderia ter tomado uma sobredose; a necropsia confirmou esta hipótese. Cogitaram suicídio, ou abuso; um acidente, uma fatalidade, foi o que disseram. Mas quando Silvana me procurou, ela estava desesperada. Alguém que teme a morte não comete suicídio. Ela tinha medo que alguém fizesse algo contra ela. Pensei que fosse Carregno, mas era de você que ela tinha medo. Só que você, rapazinho, é mais ardiloso do que parece. Não precisou apertar o gatilho, nem ninguém que fosse lá, fizesse isto para você, e depois, cagando nas calças, corresse para contar a Carregno que o sobrinho o havia incitado a matar a concubina. Quantas pontas soltas, não?

— E? — Vinny me desafiava.

— E que maneira mais discreta do matar alguém com remédios? No dia em que seu tio morreu, eu apanhei uns frascos do antidepressivo que ela tomava. Ao chegar em casa, reparei que havia alguns comprimidos com formato ligeiramente diferente dos demais; um diferente para cada dez normais. Algo que não seria percebido, se não se prestasse atenção. Esmaguei um deles, misturei com miolo de pão e joguei na varanda. Dezenas de pombas se juntaram para o banquete. E não é, uma a uma, elas morreram minutos depois de comerem o veneno?

— Qualquer um poderia ter misturado o veneno com o remédio. Isto não quer dizer nada — Vinny se defendeu.

— Talvez, mas você tinha o motivo, você tinha o meio para realizar o intento, e tinha a autoridade, ao falar em nome do seu tio, para aterrorizar o legista, suborná-lo, e obrigá-lo a relatar no laudo haver sido uma sobredosagem. E mais do que isto: quando você me viu aqui no escritório do seu tio, uma idéia lhe ocorreu: “Por que não usar este trouxa para realizar meu objetivo?”

Cruzando os braços, Vinny aguardava o restante da minha explanação.

— Você já sabia que eu estava atrás do assassino da Silvana. Seus homens tiraram minha foto no cemitério. Você sabia que um carregamento de ópio estava para chegar, para ser revendido pela máfia chinesa, e que seu tio, primeiro cogitou a possibilidade de roubar o carregamento, mas, depois, achou a operação muito arriscada. Então, sem a autorização ou conhecimento de Giuseppe Carregno, você me contatou, instruiu-me a investigar a máfia chinesa, sendo que você já conhecia, de antemão, a data do carregamento; foi tudo uma armação, para que eu, se fosse pego pelos chineses, contasse quem havia me enviado — a máfia italiana — e, mesmo se eu não fosse pego, não haveria dúvidas de que uma guerra entre as máfias havia sido declarada. Fui um peão no seu jogo. Por isto, você me queria morto. Pois, se eu continuasse investigando e descobrisse toda esta história, acabaria chegando em Giuseppe, questionando-: “Por que me usou para seus planos? Os chineses tentaram me matar!”; então, Giuseppe não entenderia nada, nunca havia me contratado, facilmente acabaria em você, e seria seu pescoço que iria para a forca.

— Eu não o queria morto, Vico. Eu lhe disse que era para você ir embora depois de cumprida a investigação. Mas é um enxerido, por isto, terá o fim dos enxeridos.

Vinny pôs a mão na gaveta e retirou uma pistola. Depois, encaixou o silenciador.

Apontando a arma para mim, disse:

— Que tal pormos um fim de verdade nesta história?

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