sábado, 23 de junho de 2007

Capítulo 23

O constrangimento de Vico e Rose

Rose retornou trazendo o que eu lhe havia pedido.

Enquanto eu me recuperava do congelante banho de mar num banho quentinho de banheira, Rose se esgueirou até meu escritório, retirou as valises do esconderijo sob tábuas soltas, apanhou minha roupa, e voltou correndo para o apartamento dela.

— Era isto que você queria? — ela me perguntou, eu me enxugando, após o banho reconfortante.

— Você é o máximo, Rose — eu disse, abrindo as valises e retirando o que havia nelas. Os olhinhos de Rose brilharam, aposto que ela nunca havia visto tanto dinheiro antes.

Eu entreguei a ela o envelope contendo a caderneta de Silvana e as fotos que tirei nestes últimos dias.

— Rose, o que vou pedir a você é algo muito sério. Você já viu que tem gente querendo me matar. Se algo acontecer comigo nestes próximos dias, prometa-me que você vai entregar este envelope ao comandante Martins, da Divisão de Crime Organizado da polícia.

— Nada vai acontecer contigo, Vico — havia desespero no rostinho dela.

— Eu sei que não. Mas, se acontecer... — eu detestava ter de recorrer a estes clichês, mas eu tinha medo sim de morrer, e gente me querendo morto também não faltava. — Prometa-me.

Rose resmungou algo, devia ser a promessa, lutava para engolir o choro.

— Outra coisa, — retirei um maço de dinheiro da valise, devia ter umas quinhentas pratas, quase três meses de salário da Rose — fique com este dinheiro, para quaisquer eventualidades. Vou deixar as valises aqui, pois sei que posso confiar em você.

— Não quero nada. Não estou fazendo isto por dinheiro — ela relutou.

— Eu insisto. Não se trata de pagamento, é só porque me importo com você — ela aceitou.

— Você me explicará o que aconteceu? — Rose acariciou o meu rosto, barba por fazer.

— Talvez um dia. Nem eu sei direito no que estou envolvido; tantas peças não se encaixam, mas tenho impressão que de tenho sido manipulado, durante todos estes últimos dias.

Rose me beijou.

— Vou fazê-lo se esquecer do que passou.

Brochei...

Se você é homem, sabe que isto um dia ocorre; se não ocorreu, pode ter certeza que ainda vai acontecer. Com que cabeça eu transaria com Rose? Estava todo arrebentado, não havia um músculo no meu corpo que não estivesse doendo, os chineses queriam me matar, os italianos queriam me matar, não há homem no mundo que consiga dar no couro nestas condições.

— Não fique assim, Vico, estas coisas acontecem.

Ensaiei um sorriso: por que as pessoas não conseguem ficar quietas diante dum pinto mole? Não basta um silêncio reverente? Não basta deitar e dormir, apesar do constrangimento.

— Você está cansado, machucado; eu não devia ter tentado nada — Rose insistia.

— Menina, posso lhe pedir algo?

— É claro, Vico, tudo que quiser.

— Sem querer ser grosso, mas cale a boca!

Rose ficou chateada comigo, ela é muito sensível. Também implorou para que eu não saísse de casa, quando eu disse a ela que resolveria duma vez por todas minhas pendências.

Eu não era dado a intuições, sensações misteriosas, previsões mágicas, mas algo me dizia que eu estava certo, naquela noite, tudo se resolveria.

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