sexta-feira, 15 de junho de 2007

Capítulo 21

Vico, O Magnífico

Já fiz de tudo nesta vida.

Acho que disse isto antes, mas quando se trata duma verdade, nunca é demais repetir: já fiz de tudo nesta vida.

Aos quartoze anos, fugi de casa. Tinha ido ao circo com minha mãe e meu irmão, e fiquei fascinado com o domador de leões. Um homem, nem forte nem fraco, com um chicote e um banquinho, dominando uma fera, sanguinária, “o rei das selvas”, presas assassinas, bote mortal.

A caravana do circo partiu. Na manhã seguinte, quando os caminhões da companhia circense estacionaram para serem abastecidos, o mágico me encontrou, escondido dentro dum armário, em seu trailer.

— Que isso? — ele se assustou. Não era truque de mágica algum, era apenas um adolescente revoltado, que queria domar leões e conhecer o mundo.

Eu me expliquei, contei-lhe minha vida, chorei, resmunguei, mas nada, o coração do mágico era inclemente.

— Pra fora, seu pirralho!

Parti, então, para estratégias mais sedutoras: prometi que lavaria a roupa dele, que limparia o trailer, e todos aqueles afazeres domésticos que eu jamais havia realizado anteriormente.

O mágico, cujo nome era Zorba, o Prodigioso, balançou:

— A roupa? O trailer?

E percebi que havia acertado o alvo, fiz novas promessas, todas que me rebaixavam a um estado servil, ao mesmo tempo que livre, já que não teria de ver a cara do meu pai novamente.

Zorba aceitou.

Então, virei a maricota do mágico. Lavava, passava, esfregava, limpava, mas me tornei amigo de Zorba. À noite, após as apresentações da companhia, Zorba me ensinava algum truque, nada muito sofisticado, alguma magiquinha com baralho, escondendo cartas na manga.

E, aos poucos, também me tornei amigo dos demais membros do circo, do acrobata, do anão, dos palhaços, do domador, do apresentador, e todos me queriam bem e me ajudavam. Deixei de limpar o trailer e passei a alimentar os animais, a girafa, os cavalos, o elefante. Só não cuidava do leão porque ele me odiava. Sem brincadeira! O leão me tinha ódio. Era eu me aproximar da jaula que ele saltava e rosnava, com sua boca banguela. Não tinha dentes, mas tinha fúria e, se quisesse, poderia me matar com uma única patada. Algo que eu nunca me tornaria, se dependesse daquele leão, era domador.

Certo dia, Zorba adoeceu e não havia ninguém que pudesse substituí-lo.

— Vico, você tem de ir. Já te ensinei tantas coisas, você pode ocupar meu lugar.

Mas eu não tinha tanta certeza quanto Zorba. Fui, acanhado, encolhido, entrei na arena, a platéia em total silêncio, vendo um meninote com capa e cartola de mágico. O apresentador me anunciou: “Vico, o Magnífico”.

Mas eu era magnífico, uma magnífica merda!

De todas as mágicas que perfiz, nenhuma deu certo. O coelho fugiu da cartola, os passarinhos escaparam das mangas, a assistente foi posta na caixa e, ao invés de aparecer um tigre, quem apareceu de novo foi a mesma assistente. Um completo fiasco. Mas todos riram, gargalharam. Eu, com os olhos rasos d’água, só queria fugir dali.

Porém, como Zorba me disse, depois, já recuperado:

— No circo, o que importa é que o público se divirta. Se você conseguiu isto, então obteve o pretendido.

Não fiquei muito tempo com a trupe. Outras coisas me atraíram, outros ofícios, outros amigos. Mas algo que nunca me esqueci foi como escapar de cordas e camisas-de-força. Este truque é bem mais fácil do que parece, mas um bizarro código de ética, que não me pertence, mais ao qual fiz juramento instigado por Zorba quando este me ensinou, foi o de nunca revelar os segredos da mágica. Tolice minha manter silêncio, ainda mais quando estava afundando na baía, submerso na água turva do porto, debatendo-me, desvencilhando-me das amarras, lutando contra a falta de fôlego e com o motor de barco que me mantinha a poucos metros do fundo; apesar de tolice, ainda restava um tiquinho de lealdade a meus anos de meninice.

Libertei-me das cordas, como se uma platéia apreensiva me assistisse e torcesse para que me salvasse, e nadei para a superfície, acompanhando os pilares, para que, quando eu emergisse, saísse sob o píer, e não à vista daqueles que me queriam morto.

Abraçado à coluna, permaneci uma meia hora, certificando-me de que os mafiosos houvessem partido. Somente assim, nadei pela borda do cais, até alcançar um atracadouro para lanchas.

Eu estava encharcado, com frio, e emputecido.

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Um comentário:

TaYê disse...

eeee adorei esse blog
adorei a histórinha
e estou curiosa pelo próximo capitulo estás de parabéns
abração