sexta-feira, 8 de junho de 2007

Capítulo 19

Vico exige explicações dos mafiosos

— Vocês me delataram, seus filhos-da-puta! — eu havia ligado a cobrar, e aproveitava para xingar tudo que tinha para xingar antes que desligassem na minha cara.

— Do que você está falando, Vico? — Vinny indagou atônito, estava sendo complacente comigo.

— Os chineses tentaram me matar ontem à noite! Você ou algum desgraçado do seu bando abriu o bico... Apanhei a noite inteira por causa do que vocês fizeram no porto.

Ouvi Vinny rindo do outro lado da linha.

— Isto não tem graça, seu mafiozinho de merda!

— É claro que não, Vico. Mas você foi muito bem pago e sabia dos riscos. Não serei eu quem ficará bancando o papai para uma criança chorona. Apanhou? Apanhou. Está vivo? Que bom! Agora, cale a boca e me ouça.

Obedeci.

— O que os chineses lhe disseram?

— E eu lá sei! Não falo esta porra de língua!

— Calma, Vico, mantenha a calma. O que você pensa que eles irão fazer? Você contou a eles sobre nosso envolvimento?

Era neste ponto em que o bicho pegava. Se eu falasse a verdade, a máfia teria uma confissão minha de que eu havia contado tudo aos chineses; se eu mentisse, eles arrancariam a verdade de mim, e mais uma sessão de tortura estaria me aguardando.

— É óbvio que contei. Eles me torturaram a noite inteira.

— Fez bem, Vico. De que você nos adiantaria morto?

— Lhes adiantaria? Vocês é que não contem mais comigo pra nada. Eu estou caindo fora desta cidade. Vocês que se matem!

— Tudo bem. Você tem razão. É melhor descansar e ficar fora da bagunça. Você não tem culpa alguma. Os chineses descobririam o roubo de ópio cedo ou tarde. Somos nós que devemos resolver este problema. Fique tranqüilo, não guardamos nenhuma mágoa de você.

— ...

— Onde você está hospedado? Ainda está no escritório?

— Não. Os chineses destruíram tudo por lá. Estou num hotelzinho barato, perto de lá.

— Então, arrume suas coisas e deixe a cidade. Não quero vê-lo por aqui até que a poeira se assente, entendido? Alguns dos meus rapazes passarão para buscá-lo, mais tarde.

— Não tem necessidade...

— É só uma garantia. Não quero que os chineses o peguem novamente. Meus homens o escoltarão para fora da cidade, você não precisa se preocupar com nada.

A conversa pelo telefone com Vinny foi insólita. Eu os havia traído e recebia uma espécie de perdão incondicional e proteção. Isto não fazia sentido algum.

Os capangas da máfia viriam me buscar à noite, por isso, aproveitei para dar um pulo no escritório, já que a polícia havia deixado o local.

Ultrapassei o cordão de isolamento e rompi o lacre na porta do escritório. Como eu havia previsto, meu coquetel molotov causou danos pequenos, apenas na região próxima à porta. Minha valise ainda estava no chão, aberta, pois a polícia deveria tê-la revistado. O dinheiro não estava lá, mas a pistola e meus pertences sim. Certifiquei-me de que as maletas estavam seguras sob as tábuas soltas embaixo da escrivaninha, aproveitei para apanhar mais umas trezentas pratas, para gastos eventuais neste tempo que ficarei fora. Repus tudo no lugar.

Retornei ao hotel e aguardei minha escolta. O recepcionista me avisou da chegada deles e desci para encontrá-los.

Havia quatro deles; dois me seguraram pelos braços e me arremessaram para o interior dum carro.

— Eu achei que iria digirindo... — ri, mas já havia percebido que as coisas ficariam pretas para mim.

— Não estamos para brincadeira. — um deles respondeu.

— Nem eu. Para onde estão me levando?

— Se eu fosse você, não gostaria de saber. — outro disse.

E lá fui eu, para mais um festival de pancadas? Ou algo pior?

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