terça-feira, 5 de junho de 2007

Capítulo 18

A polícia num escritório detonado

Eu estava a quilômetros da cidade, nos galpões abandonados duma antiga fábrica.

Retornei à pé para o escritório e só cheguei quando já havia amanhecido. Porém, não tive uma boa surpresa. Ao contornar a esquina, vi que a entrada do edifício estava impedida por faixas amarelas — NÃO ULTRAPASSE —, viaturas policiais estacionadas nos arredores, e meganhas entrando e saindo do prédio.

Era muita imbecilidade minha, ou os chineses haviam me batido demais na cabeça, pensar que eu chegaria no escritório e tudo estaria bem, mesmo após ele ter sido destruído por metralhadas, incendiado, chineses gritando e um detetive rolando escada-de-incêndio abaixo.

Com a mesma rapidez com que vinha, eu me virei e voltei pelo mesmo caminho que havia feito. Mas alguém gritou meu nome, atrás de mim:

— Vico?

Continuei andando, fingindo não haver escutado.

— Detetive Vico? — a voz insistiu.

Olhei por sobre o ombro. Camacho estava quase correndo para me alcançar.

— Olá, policial. O que está acontecendo por aqui?

— Eu esperava que você pudesse me responder isto... Por que está fugindo?

Até pensei em dar uma resposta, mas qualquer uma soaria absurda, afinal de contas, Camacho não era nenhum idiota.

— Alguém morreu? — mudei o rumo da conversa.

— Por quê? Alguém deveria ter morrido? — Camacho mantinha uma expressão sombria, como se conseguisse ler meus pensamentos.

— Não sei... Mas é que você é investigador da Homicídios. Se está aqui, é porque deve ter algum cadáver. — expliquei-me.

— Ah, aqui, neste prédio em particular, não morreu ninguém. Mas ocorreram muitas coincidências nestas últimas horas. Primeiro, há uma chacina no porto, dezessete chineses mortos; em seguida, chineses são vistos entrando neste prédio e fuzilando o escritório dum detetive particular enxerido; por fim, este mesmo detetive aparece todo arrebentado e fugindo da cena do crime. Estou investigando as mortes no porto, mas creio possuir indícios suficientes que me permitam deduzir que a chacina e o ataque ao seu escritório estão relacionados.

— De fato, possui. Mas, mesmo assim, acho que você está bem longe da verdade.

— E qual é a verdade, Vico?

Senti uma dor no peito, talvez fosse por causa da surra, mas talvez fosse uma angústia, uma necessidade de desabafar.

— Pode confiar em mim, Vico, eu não sou seu inimigo.

Como eu gostaria de acreditar nisto, pelo menos, não estaria mais sozinho nesta luta contra forças muito maiores do que as minhas. E se Camacho fosse um dos policiais da máfia?

— Eu não sei do que você está falando, policial. Passei a noite fora do escritório, não sei quem o invadiu e o que aconteceu. Não me surpreenderia se fosse algum cliente que não gostou das conclusões de alguma investigação que fiz. Você bem sabe que há louco para tudo neste mundo.

— Sei, até para acreditar numa besteira como esta que você me contou. — Camacho pôs a mão na cintura e retirou um par de algemas. — Serei obrigado a detê-lo, Vico.

— E qual é a acusação? Ter matado uma vintena de chinas? Ter fuzilado meu próprio escritório? Ou é simplesmente abuso de autoridade? Os jornais vão adorar estampar sua cara na primeira página!

Camacho hesitou.

— Vou descobrir no que você está envolvido, detetive.

Ensaiei um sorriso.

— É claro que vai.

Eu estava sem um único tostão, por isso, deixei meu relógio como caução na recepção da espelunca na qual me hospedei, a duas quadras do meu escritório.

Na minha mente, duas metas: entrar na cena do crime e resgatar minhas coisas; falar com Vinny e descobrir quem havia me ferrado.

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