terça-feira, 29 de maio de 2007

Capítulo 16

Vico encurralado em seu escritório

Só tive tempo de enfiar a mão na valise, catar o meu revólver e mergulhar em direção ao banheiro, quando as balas pipocaram em meu escritório atravessando a porta.

Se eu tivesse tempo, certamente refletiria sobre esta misteriosa relação entre eu, os chineses e um banheiro, mas, naquele momento, eu tinha mais era que pensar em como sair vivo de mais esta.

Os chineses gritavam, atiravam e gritavam, gritavam e atiravam.

Efetuei um disparo com meu revólver, e recebi cinqüenta outros das metralhadoras dos chinas.

Que mundo era este em que vivíamos, quando homens decentes tinham no máximo um mísero revolverzinho e os bandidos andavam com o que havia de melhor e mais mortífero?

Dei outro tiro, obtendo a mesma resposta dos inimigos. A gritaria na porta continuava.

Ao contrário do banheiro de Liang, não havia possibilidade de sair pela janelinha do banheiro do escritório, tanto pelo tamanho quanto pela altura. Meu escritório era no segundo andar e, mesmo que eu passasse por aquele retângulo de 50X20, me estrebucharia no asfalto. A minha única opção, neste caso, seria sair pela janela do escritório e descer pela escada de incêndio, já que, pela porta, seria impossível, com todos aqueles chineses loucos para me esburacarem.

Eles gritavam, deveriam estar decidindo quem seria o primeiro a entrar, espiei, mas não consegui ver nada, pois logo veio a fuzilaria. Voltei para minha proteção. Eu precisava criar alguma distração, algo que me desse tempo para precipitar-me janela afora e fugir.

Não podia divagar muito, tinha de ser algo prático e eficiente. Fui até o armário sobre a pia e encontrei um desodorante e perfume. Os frascos estavam cheios, boa explicação para minha sovaqueira usual.

Retirei minha camisa, amarrei parte dela no desentupidor de privada, e a embebi em desodorante. Com meu isqueiro, ateei fogo à peça que quase instantaneamente se incendiou. Uma bandeira flamejante.

Por sua vez, o frasco de perfume voou de minhas mãos, indo se estilhaçar no batente da porta de entrada. Os chineses retrucaram com metralhadas, mas me escondi. Quando eles deram uma trégua, arremessei meu coquetel molotov improvisado em direção à porta e a camisa em chamas, em contato com a porta embebida em perfume de quinta, criou um efeito semelhante àquelas rodas de fogo que vemos em circos, pelas quais pobres leões são obrigados a saltar. Os chineses gritavam, desorientados.

Foi a minha oportunidade para escapar; enrolei uma toalha fedida no antebraço e avancei em direção à janela. Os chineses, por entre a porta flamejante, me viram e dispararam a esmo. Para minha sorte, eles tinham péssima mira e não me atingiram. Atravessei o vidro da janela, meu braço protegido dos cacos pela toalha e caí de boca contra a escada de incêndio. Desci por ela quase rolando, ouvindo disparos sobre mim. Os leões haviam atravessado a roda de fogo.

Desci a escada, para poder, enfim, chegar ao térreo. Descia com pressa. Quando toquei os pés no chão, levei uma coronhada na têmpora que me fez desmaiar.

Eles haviam me pegado.

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