quarta-feira, 23 de maio de 2007

Capítulo 14

Vico acompanha o descarregamento das mercadorias no porto

Noventa por cento do trabalho dum detetive é esperar.

Um detetive competente é aquele que consegue agüentar longas horas, atento, vigilante, esperando apenas aquele segundo, no qual ele obterá a prova que solucionará o caso. Horas, pelo segundo certo.

Neste sentido, eu poderia me considerar como um puta investigador. Isto desde criança, eu empoleirado na árvore, esperando a Mariana trocar de roupa. Suportando câimbra, frio, desconforto, apenas por aquele momento que valeria a minha noite e que povoaria minha imaginação antes de dormir, quando eu brincava sozinho na cama, gemendo baixo para que meu pai não acordasse e viesse me bater com aquele bafo de bêbado.

Eu sabia esperar, e onde fazer isto para que não fosse descoberto.

Montei meu equipamento no telhado dum armazém. A câmera armada num tripé, apontada para o píer quatorze.

Ao contrário de dois dias atrás, quando o cais estava envolto em névoa, a noite de quarta estava maravilhosa, a lua cheia e algumas estrelas salpicadas no céu. Quando cheguei, ainda havia movimento no porto, mas, enquanto anoitecia, as pessoas desapareçam e os navios silenciaram.

Comi um sanduíche, tomei café, fumei um cigarrinho. Quando a hora esperada se aproximou, comecei a ficar ansioso. Faltavam quinze minutos para a meia-noite.

No mar, avistei um minúsculo ponto luminoso. Apanhei o binóculo. Era uma embarcação. Lentamente, balouçando, ela vinha para o porto. Tão devagar que parecia levar uma eternidade.

Do barco, surgiu um sinal de luz. Os tripulantes estavam indicando, para alguém em terra, que estava tudo bem.

Detectei um homem lá embaixo, com uma lanterna na mão, respondia ao sinal. Neste momento, quatro automóveis e uma caminhonete chegaram e estacionaram no porto. Deles, desceram vários homens, chineses, sem dúvida, todos baixinhos e cabeçudos. Traziam metralhadoras dependuradas nos ombros.

Eu os fotografei.

O navio atracou. Um marinheiro chinês desembarcou e amarrou no píer o barco. Em seguida, caminhou em direção aos outros chineses em terra e os cumprimentou. O que deveria ser o líder do grupo deve ter dado a ordem para descarregar a mercadoria, pois o marinheiro correu de volta ao barco e se iniciaram os trabalhos.

Era exatamente meia-noite e trinta e dois minutos quando a primeira caixa foi derribada. O trabalho braçal era realizado pelos marujos, os outros, que vieram de carro, pareciam ser apenas os guarda-costas. Uma a uma, as caixas foram levadas para a caminhonete, num total de dez.

Os chineses embarcaram nos veículos e começaram a manobrar para partirem.

Onde estavam os italianos? Será que preferiram não intervir?

Eu fotografava tudo, mas, pelo visto, este tudo seria nada.

Quando os chineses, em comboio, estavam deixando o píer e realizando a curva para contornar um dos depósitos e atingir a estrada para a cidade, um caminhão veio na contramão e se chocou de frente contra o primeiro automóvel. Por trás do comboio, surgiram outros dois carros, que bloquearam a fuga. Um terceiro veículo estacionou no píer.

Os italianos haviam feito a sua magistral chegada.

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