sexta-feira, 18 de maio de 2007

Capítulo 13

Interlúdio amoroso

Aproveitei para buscar novas evidências sobre a morte da Silvana na terça. Fui ao necrotério e me deparei com talvez a única pessoa incorruptível da cidade, o médico legista, dr. Milano.

Fiz várias perguntas a ele, às quais ele respondeu com evasivas. Perguntei sobre a causa da morte de Silvana.

— Ela foi vítima de superdosagem de drogas psiquiátricas.

— Suicídio?

— Isto cabe à polícia determinar.

Nosso diálogo foi inteiramente assim; Milano era incapaz de dar uma resposta direta.

Quando perguntei se podia ver o laudo, ele se recusou a mostrá-lo. Quando mencionei os frascos de remédios encontrados na cena do crime, ele me disse que nunca recebeu frasco algum.

Fato bastante estranho. Como ele não havia recebido frasco algum? Eles estavam na cabeceira da cama, ao lado de Silvana. Tais evidência deveriam ter se extraviado entre a hora que eu a encontrei morta e a chegada dela ao necrotério. Ou o legista estava mentindo para mim. Ele parecia ser incorruptível, mas ninguém, ninguém mesmo é incorruptível.

A morte (ou assassinato) de Silvana estava escapando das minhas mãos. A cada dia que passava, mais longe eu me encontrava duma solução. As pontas soltas eram muitas e eu já não sabia aonde ir, nem a quem recorrer. Algo me dizia que estava na hora de me esquecer dela e voltar a me concentrar no presente, no que precisa ser feito, e no futuro, os casos que ainda virão.

Entrei num bar e pedi uma cerveja. Minha mente necessitava de descanso. Eu estava frustrado e, ao mesmo tempo, ansioso. Tinha dinheiro no bolso e, amanhã à noite, acompanharia o ataque dos italianos aos chineses. Eu assistiria a este evento e, depois, desapareceria por alguns dias. Tirar umas férias forçadas, esperar que as coisas se assentem, pois, provavelmente, o clima vai esquentar na cidade.

Uma bela morena me encarava, do outro lado do bar. Sorri para ela, erguendo minha cerveja em cumprimento. Ela mexeu no cabelo, baixou os olhos, sorriu e voltou a me encarar.

Fui até ela e disse a frase mais clichê daqueles que querem transar com uma bêbada:

— Garçom, traga outro drinque para a senhorita e mais uma cerveja para mim.

— Nunca te vi por aqui, bonitão. — ela molhou os lábios com a língua.

— Talvez porque eu nunca venha aqui.

Rimos.

Carol abriu meu cinto, ansiosa por me ver livre das calças. Eu tentava desabotoar o vestido dela, que resistia à minha inaptidão.

— Deixe que eu faço isto. — Carol passou a se despir, enquanto eu fazia o mesmo.

— Andou apanhando por aí, machão? — Carol beijava os pontos arroxeados em meu torso.

— Nem diga... — apesar de todo machucado, eu estava muito excitado. Há duas semanas que eu não fazia um amor gostoso, desde aquela deprimente discussão com Rose. Eu gostava daquela moça, trabalhadora, séria, mas queria algo que eu não podia lhe dar. Não sou homem de comprometimento; vivo das incertezas, do momento, da ausência do futuro.

— Pelo visto o pequeno Vico está querendo sair. — Carol enfiou a mão dentro da minha ceroula, eu gemia. — Pode deixar, hoje eu vou curar todas suas feridas.

Eu adoraria que fosse verdade, Carol, mas minhas feridas são muito mais profundas do que você imagina, bem mais dolorosas do que aparentam, e não vai ser qualquer vagabunda que vai me curar.

— É perigosa sua vida? — Carol e eu fumávamos, após o sexo.

— E a sua? — repliquei, não estava muito a fim de conversa.

— Estou falando sério! Sempre achei que a vida dum detetive fosse cheia de aventura, como nos filmes.

— Isto é tudo mentira, menina. A vida dum detetive é tão tediosa quanto a de qualquer outra pessoa; a única diferença é que nosso ofício é descobrir a sujeira que os outros querem esconder.

— Mas e os grandes amores? Os bandidos perigosos?

— Nada disto existe. Os bandidos perigosos são homens como nós: fracos, mortais, inseguros. Também sangram e sofrem como qualquer um. Grandes amores? Em que mundo você vive? Será que no seu país de conto-de-fada as princesas conhecem seus príncipes num bar e vão para a cama depois de meia dúzia de drinques e palavras?

Carol não gostou das coisas que eu disse...

E daí? A verdade quase nunca é agradável.

Aproveitei o tempo que me restava e me preparei para o que estava por vir. Comprei uma nova câmera e uma teleobjetiva, um binóculo e uma pistola semi-automática.

No crepúsculo de quarta-feira, acionei a ignição do meu automóvel e dirigi até o porto.

Seria uma longa espera, mas o show prometia ser bom.

Retornar ao Capítulo 12 <<===>> Avançar para o Capítulo 14

Nenhum comentário: