terça-feira, 15 de maio de 2007

Capítulo 12

Da decisão que Viccenzo tem de tomar

Apesar da câmera haver se quebrado durante a surra, o filme estava intacto.

Revelei as fotos.

O entregador do restaurante chinês, por apenas vintão, leu para mim o que estava escrito no livro de notas de Liang.

Havia três carregamentos vindos de Xangai naquela semana, dois durante o dia e um, estranhamente, vindo durante a noite.

Entregar a droga durante o dia seria uma excelente maneira de despistar a polícia. Nada menos óbvio do que realizar um negócio ilícito diante da vista de todos. Porém, um carregamento à meia-noite era algo bastante inusitado. Que tipo de estivador trabalha à meia-noite? Que tipo de mercadoria precisa ser descarregado a esta hora da noite? Não se pode esperar que amanheça para que tal procedimento seja realizado?

Estas três perguntas me levaram à conclusão de que, se os chineses estivessem trazendo drogas, seria no navio da noite. Eu não tinha como me certificar disto, já que no caderno de Liang não havia nenhum tipo de informação sobre a espécie de produtos embarcados em cada um dos navios. Porém, a sorte estava a meu favor. O carregamento da meia-noite chegaria numa quarta-feira.

Os outros dois, na sexta de manhã e no sábado à tarde. Se, por acaso, o carregamento da noite não contivesse o procurado, os italianos poderiam realizar outras duas tentativas.

Foi isto que falei para Vinny, quando me encontrei com ele no restaurante italiano onde combinamos de nos encontrar.

— Mas há um problema, Vico. Se nós abordarmos o navio na quarta-feira, os chineses saberão que estamos atrás do ópio. Não teremos segunda ou terceira tentativas.

Ele tinha razão, mas, interiormente, eu tinha certeza de que estávamos atrás da pista certa.

— Mesmo assim, tenho plena convicção de que é o carregamento de quarta. O horário é muito estranho. Esta situação não cheira bem.

Vinny tragou o cigarro, cruzou as pernas e se esticou no espaldar da cadeira. Considerava as possibilidades que eu lhe apresentara.

— Vou conversar com titio. Deixarei que ele decida o que devemos fazer.

Ele estalou os dedos e um dos seus capangas logo trouxe uma outra maleta, na qual deveria conter, e de fato continha, a segunda parcela do meu pagamento.

— Por mim, eu considero o trabalho concluído, Vico. Mas, caso titio deseje mais informações, esteja pronto para realizar novas investigações, ainda pelo preço que estipulamos. O trabalho está pago, mas eu ligarei para você ainda hoje, confirmando se há algo a ser feito ainda ou não.

— Concordo.

Vinny fez um sinal com a mão, indicando que eu deveria me retirar, mesmo sem terminar de comer meu talharim ao sugo.

— Só mais uma coisa... — perguntei, enquanto me levantava — vocês conseguiram descobrir algo sobre a morte da Silvana?

A resposta era óbvia. Eles só não haviam descoberto, como sequer haviam procurado por novas informações. Don Carregno tinha outras preocupações em mente, como contrabando de ópio da China, por exemplo. Talvez ele fosse daquele tipo de pessoas que pensa: “Morreu? Está morto, sigamos adiante”.

Eu também costumo ser assim, mas toda regra possui sua exceção.

Vinny me ligou no escritório, e murmurou a frase que seria enigmática se eu não soubesse o assunto que se tratava:

— Titio comprou o doce. Não precisamos de mais caixas.

Senti-me como naquelas brincadeiras de criança, quando fingimos ser espiões e criamos códigos-secretos estúpidos para escondermos operações evidentes.

— Espero que ele goste dos doces. — respondi, rindo comigo mesmo.

Então seria na quarta-feira, meia-noite.

Retirei o chapéu, o casaco, a gravata, abri os botões da camisa e me joguei no sofá. Eu precisava encontrar algum lugar para morar. Debaixo da minha escrivaninha, havia duas valises, dez contos no total. Talvez eu até pudesse tirar umas férias, ir para alguma praia, encher a cara, bronzear este corpanzil branco e comer algumas mulatas.

No entanto, não se pode preparar a festa e não assistir à queima de fogos.

Na quarta-feira, eu estarei no porto também, fazendo o que sei de melhor: espreitando.

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