sexta-feira, 13 de abril de 2007

Capítulo 6

Vico entende a estrutura da máfia

Martins estava sentado no balcão do bar, cerveja e cigarro nas mãos.

— Quer dizer que você pode beber em serviço? — brinquei, enquanto fazia sinal para o garçom também me trazer uma loira gelada.

— É claro que não. E você? — Martins tragou, sorrindo maroto.

— Não só posso, como devo. — eu e Martins rimos.

— Recebi as fotos que você me mandou. — ele disse.

Eu estava muito curioso para saber o que Martins tinha para me dizer. Eu e ele havíamos feito a Academia da Polícia juntos, isto há muitos anos atrás. Eu desisti (ou fui reprovado, isto não faz mais diferença) e segui adiante, fazendo de quase tudo na vida, mas Martins se tornou policial, primeiro patrulhando as ruas, depois investigador da Homicídios, por fim, um dos criadores da Divisão de Crime Organizado da cidade. Atualmente, Martins era o comandante da divisão. Se havia alguém que conhecia as atividades de Carregno, fora, obviamente, os membros da organização, era ele.

— E aí? — perguntei, ansioso.

— Eu não sei o que você está procurando... Ou que tipo de problema você tem com a família Carregno... Mas se você quiser o conselho dum amigo, Vico, saia desta.

— Uhum... — murmurei, eu não estava a fim de advertências paternalistas. Martins, por pensar ter ascendido na vida por causa de sua carreira na polícia, sempre tinha destas.

Ele retirou do bolso o envelope que havia enviado a ele, e dele as fotos.

— Você tem alguma idéia de como se estrutura a cosa nostra? — ele me perguntou.

— Vagamente... — eu possuía o conhecimento básico sobre o assunto. Felizmente, meu caminho e da máfia nunca haviam se cruzado antes. Eu lia jornal, assistia, quando o tempo me permitia, aos filmes hollywoodianos, ouvia rádio, então, meu conhecimento era o mesmo do cidadão médio, Al Capone, metralhadoras Thompson, etc. — Bem, eu sei que a máfia está envolvida em todo tipo de negócio ilícito: tráfico de drogas, prostituição, extorsão, lavagem de dinheiro, tráfico de armas, compra de juízes, de policiais, de políticos, roubo de cargas, assassinatos...

— Você tem razão. Mas quem você quer pegar? — Martins colocou as fotos uma do lado da outro sobre o balcão.

Apontei para o foto de Giuseppe Carregno.

— Eu tenho quase certeza que é ele. — disse, completamente constrangido, encolhido diante da superioridade com a qual Martins se punha diante de mim.

— Se você busca Carregno, adianto-lhe para que desista agora. Você nunca vai pegá-lo. Carregno é intocável. Estou há quinze anos na cola dele, mas não conseguimos incriminar o filho-da-puta.

Fiz um movimento com a cabeça, indicando para que Martins continuasse.

— Giuseppe Carregno é o que se chama de Capofamiglia. O Don Carregno, o chefão. A posição dele é o que o protege. Ele dá as ordens, mas a culpa nunca recai sobre ele. Se ele manda matar alguém, e o crime for desvendado, quem cai é um dos soldados. Ele nunca é culpado. Don Carregno é sempre inocente.

— E se eu resolver fazer do meu jeito? — retruquei.

— Qual é o seu jeito? Assassiná-lo? Então, você será um homem morto. Vale a pena? Você é quem decide...

— Mas quem são os outros? — apontei para as demais fotos.

— Este aqui é Salvatore Carregno, irmão de Giuseppe, conhecido como “Punho de aço”. — Martins falava do que tinha a sobrancelha unida — Ele ocupa a posição de Sotto Capo, é o segundo em comando depois de Giuseppe. Salvatore é quem comanda quando Giuseppe está fora da cidade e, se algo acontecer, é o segundo na sucessão para tornar-se o chefe.

— E este? — apontei para o altão engomado.

— Domenico Giambattista, o consigliere, o conselheiro de Don Carregno. Advogado ardiloso, sempre nos tribunais defendendo os asseclas da família.

Por fim, aquele que mais me intrigava, o rapazola que por último visitou o túmulo.

— Viccenzo Imbruglia, sobrinho de Giuseppe. Ele é um Capodecina, chefe dum grupo de dez soldados. A família possui vários destes grupos, cada um comandado por um Capodecina. Estes são os braços operacionais da família, quem executa as ordens, os únicos nos quais conseguimos pôr as mãos. Malditos bastardos!

Ri, acendendo um cigarro.

— Preste atenção, Vico. Se você for se envolver nisto, não se deixe ser descoberto.

Baixei os olhos.

— Já aconteceu? Como? — Martins segurou meu braço, estava preocupado.

— Tiraram fotos de mim, neste mesmo cemitério. Acho que foi um policial

— Se for um policial de Carregno, você já está bem fodido!

Talvez Martins tivesse razão, e a situação que ele me expôs não era das mais estimulantes. Porém havia algo que me encucava, as presenças de Giuseppe, Domenico e Salvatore no enterro de Silvana faziam sentido, mas o que Viccenzo fazia lá também?


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Um comentário:

Henrique disse...

Estou ansioso pelo próximo!