sexta-feira, 6 de abril de 2007

Capítulo 5

Diálogo com doutor Frischenbauer


Joguei o envelope no interior da caixa de correio, agora, seria apenas esperar o telefonema de Martins.

Estava diante dum prédio suntuoso. Os cavalheiros que entravam e saiam dele, todos com belos ternos e chapéus, sapatos bem engraxados, fizeram-me envergonhar dos meus trapos. Tudo em que consegui pensar foi tentar remover aquela mancha de café da minha gravata. Tentei esfregar com saliva, mas de nada adiantou.

Entrei e, no saguão do prédio, havia uma placa enorme, sobre os elevadores, com os andares e o nome de quem ocupava as salas. Retirei minha anotação do bolso e conferi — sala 1210 —, eu estava no lugar certo.

A secretária me atendeu com desdém:

— Posso ajudá-lo? — sorrisão amarelo.

— Procuro pelo doutor Frischenbauer.

— Tem consulta marcada?

— Não. Estou investigando a morte duma paciente dele. Detetive Vico. — entreguei um cartão a ela. Houve uma ligeira mudança no comportamento da secretária.

— Vou avisar o doutor. — a moça se levantou, meu cartão em mãos, e entrou numa porta.

Sentei-me e folheei uma revista de fofocas. O consultório era bem decorado. Este doutor devia ser psiquiatra de loucos ricos, porque louco pobre era lançado num manicômio e apodrecia lá. Foi o que aconteceu com meu irmão caçula.

— Por favor, acompanhe-me, o doutor vai recebê-lo. — a secretária me chamou.

Frischenbauer estava sentado numa poltrona, olhar vazio, movimentos lânguidos.

— A polícia já esteve aqui, detetive. — ele me disse, com voz pausada.

— Mas eu não sou da polícia.

— Por que eu deveria lhe dar alguma informação, então? — o psiquiatra me olhou por sobre os óculos.

Eu caminhei até o fundo da sala, onde os vários diplomas de Frischenbauer estavam dependurados.

— Pela simples razão de que a polícia não está interessada em desvendar este caso.

— Que idéia mais estapafúrdia. — Frischenbauer riu.

— Você sabia que Silvana era amante de Giuseppe Carregno?

— Eu não posso revelar o conteúdo do que meus pacientes me confidenciam.

Fitei-o com seriedade.

— Carregno manda em metade da polícia da cidade. Se foi ele quem ordenou a morte de Silvana — e eu tenho quase certeza de que foi ele —, a polícia jamais descobrirá um culpado. De duas, uma: ou eles alegarão suicídio, ou eles encontrarão algum otário em quem botar a culpa.

É claro que eu não abriria o jogo para o médico de que este otário era eu.

— E o que você tem a ver com este crime?

— Eu era amigo da Silvana. — Dr. Frischenbauer não pareceu acreditar em mim. — É uma promessa.

— Adoraria ajudá-lo, detetive... Mas as consultas são sigilosas.

— Você falou alguma coisa para a polícia? — insisti.

— Não. Eles receberam a mesma resposta que você. Só tenho obrigação de falar num tribunal.

— Entendo. Só me diga algo, creio que isto você pode: Silvana tinha tendências suicidas?

Frischenbauer coçou o queixo, hesitava.

— Não, pelo contrário, nunca conheci mulher que amasse mais a vida que ela.

Naquela frase, a máscara de frieza de Frischenbauer caiu. Compreendi que havia algo muito além dum relacionamento paciente-médico ali.

— E por que você receitou antidepressivos para ela?

— Silvana não estava numa boa fase. Depressão não quer dizer que o paciente deseja se suicidar. São patologias completamente diferentes.

— Obrigado, doutor. Ligue-me, caso decida falar.

Quando estava quase deixando o consultório, uma última pergunta, estúpida, mas que martelava em minha mente, me escapou:

— Você teria alguma razão para matar Silvana?

Frischenbauer riu, misto de nervosismo e desconcerto:

— É óbvio que não! Nunca!

Já estava no corredor, aguardando o elevador, quando a secretária correu para fora e me entregou um pedaço de papel:

— O dr. Frischenbauer me pediu para lhe dar isto. — e ela lançou uma piscadela para mim.

Escrito no papel, com aquela quase ilegível letra de médico, o endereço de Giuseppe Carregno.

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Um comentário:

Leandro disse...

Estou gostando até agora! Espero que tenha mais pistas "ocultas" para que nos leitores possamos chegar a alguma conclusão.