sábado, 31 de março de 2007

Capítulo 4

Dos que atenderam ao enterro de Silvana

Dei uma passada no necrotério e descobri o horário em que Silvana seria sepultada. Sexta-feira, nove da manhã.

Cheguei cedo ao cemitério, estacionei meu carro num ângulo em que eu pudesse ter clara visão dos que se postariam ao lado da cova aberta para Silvana. Acendi um cigarro.
Uma multidão, todos de preto, deixava o cemitério. Conferi no jornal o nome do morto, Eliazar Baptista, padeiro. Devia ser bom padeiro, pão seco e duro não atrairia tanta gente assim para a despedida.
O cemitério se esvaziou.
Um carro preto estava estacionado há uns trinta metros atrás do meu. Com meu binóculo, avistei o motorista e o passageiro do automóvel. Eram os dois policiais bananas — Camacho e Soares. Eles também estava tocaiando.
Conferi o relógio, estava quase na hora da Silvana. Dois coveiros maltrapilhos traziam o esquife, atrás deles, três homens em ternos. Um deles, o que vinha no meio, era baixo, carrancudo, nariz batatudo, cabelos ralos e fumava um charuto, trazia um triste semblante e um ramalhete de flores, fácil reconhecê-lo, afinal de contas, Carregno vivia nas páginas dos jornais; o que vinha a sua esquerda era alto, nariz fino, cabelo duro e lambido de tanto gel, terno impecável e ares de pedante; o da direita era um pouco mais alto que o do meio, sobrancelha espessa que se unia no meio, lábios caídos e olhar perdido. Por fim, vinha um padre, todo paramentado.
Fotografei-os enquanto se aproximavam da cova. Com a teleobjetiva, consegui bons retratos dos rostos deles.
O sacerdote deve ter proferido algum sermão, pois Carregno concordava com a cabeça. Não seria irônico que, agora, um padre que nunca havia visto a Silvana apregoasse as virtudes da moça?
Gostaria de estar lá e ouvir...
Os coveiros se aproximaram do caixão e o desceram, com cordas, no túmulo.
Carregno jogou as flores no buraco e os três, acompanhados do padre, partiram. Por fim, foram embora também os coveiros.

Esperei por horas. Não tinha bem certeza do que esperava, mas, mesmo assim, esperava. O carro dos policiais entrou em movimento, vindo em minha direção. Abaixei-me no banco para que não me vissem. Passaram por mim. Os bananas não tiveram paciência.
Quando estava quase desistindo também, vi um outro homem se aproximar do túmulo. Preparei a câmera. Era um rapaz, pouco mais de vinte anos, traços duros, expressões sérias, chegou hesitante, parou diante da lápide e permaneceu estático, em silêncio. Tirei fotos dele. Com a mesma sutileza com a qual veio, ele também foi embora.
Aguardei mais alguns instantes. Certificando-me de que minha vigília havia terminado, deixei meu automóvel e também me postei diante da lápide, onde estava inscrito o nome, o ano de nascimento e morte de Silvana.
Fui tomado por uma tristeza súbita e pelo peso da promessa que fiz a seu cadáver.
Ajoelhei-me sobre a terra recém-revolvida e repeti a promessa:
— Vou descobrir quem fez isto, Silvana.
Foi quando avistei alguém, semi-oculto atrás de uma árvore. Estava me fotografando.


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