quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lançamento do livro "O Covil dos Inocentes"

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Acabou de ser publicada a segunda edição do livro com a compilação do romance online "O Covil dos Inocentes" e alguns contos com o Detetive Vico, pela Oficina Editora.

Sinopse

Ao investigar a misteriosa morte duma antiga amante, Vico se envolve numa sangrenta guerra entre as máfias italiana e chinesa.

Com sua característica visão de mundo, Vico nos apresenta um panorama brutal, onde reina a lei do mais forte.

“A vida dum detetive é tão tediosa quanto a de qualquer outra pessoa; a única
diferença é que nosso ofício é descobrir a sujeira que os outros querem esconder.”

Para comprar o livro
U$ 11,99 + frete
http://www.lulu.com/content/1410358

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Diário Vermelho (Conto)

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Um crime contra a liberdade de expressão

Eu não tenho muita gratidão com aqueles que me criaram. Meu pai, negligente, minha mãe, submissa. Não foram os pais exemplares, mas eu também não fui um filho exemplar, então, estamos quites.

No entanto, compadeci-me diante do choro duma mãe angustiada. O filho de Maria estava desaparecido há mais de dois meses, e ela não tinha notícias sobre o paradeiro dele, se vivia, ou se estava morto.
Só que ela sabia quem eram os responsáveis pelo sumiço do rapaz e por qual motivo.
Edgar era jornalista dum folhetim de orientação esquerdista (para não dizer comunista), sob pseudônimos, criticava duramente as práticas militares, satirizava o “Braço Forte” dos milicos. Tudo estava ótimo, enquanto protegido pelo anonimato.
Mas um delator revelou o nome do editor do jornaleco, que, por sua vez, sob tortura, deu com a língua nos dentes e entregou todos seus colaboradores. Numa abominosa noite, quinze pessoas, de jornalista a contínuo, foram arrancadas, a bordoadas, de suas casas e conduzidas aos porões do Exército.
Esta foi a última vez que Maria viu seu Edgar, olhos esbugalhados, gritando por piedade, sendo arrastado pelos cabelos por homens fardados. Em tantos anos de viuvez, esta foi a única ocasião em que Maria se alegrou por Timóteo, capitão galardoado da Aeronáutica, não estar presente para ver seu filho vítima da intolerância.
— De quem você suspeita? — indaguei e, sem hesitação, sem dúvida alguma, Maria respondeu.
— Do Coronel Castro e Silva.

Tocaiei o coronel por dois ou três dias, mas seria impossível me aproximar dele, sempre fortemente escoltado. Resolvi que teria de começar por baixo, procurando os milicos que perpetraram o crime, se eu conseguisse derrubá-los, talvez o cabeça também rolasse, mas, partir de cima, seria um objetivo inalcançável.

Voltei a conversar com Maria, tentar fazê-la se lembrar do nome ou das feições de algum dos soldados que invadiram sua casa, mas a memória dela estava enuviada pela terrível experiência.
Obtive os endereços dos outros quatorze desaparecidos e realizei a via crucis de conversar com cada um dos parentes. Alguns se recusaram a falar, evidentemente aterrorizados, talvez até por causa de ameaças; outros, forneceram poucas, mas valiosas informações. Cheguei a três nomes consensuais: sargento Brandão, cabo Pires e soldado Tíbuli.

Seguindo meu plano, que era começar pelo mais baixo na hierarquia, passei a investigar Tíbuli. Não foi difícil encontrá-lo, qualquer o conhecia na região do quartel, era benquisto e simpático, pelo que diziam. Ele morava num bairro pobre, era jovem e tinha uma esposa mais jovem ainda, barriga roliça quase pronta para trazer ao mundo um Tibulizinho. O rapazola acordava cedo e se encaminhava ao quartel. Ao fim do dia, voltava para casa, jantava assistindo TV e dormia cedo, possivelmente arrebentado por causa da rotina militar.
Mudei o foco para o cabo Pires. Este morava com os pais, no segundo andar dum sobrado. Tinha uma rotina semelhante a Tíbuli, excetuando que, à noite, ele saía para a farra com os amigos, todos milicos.
Freqüentavam um arrasta-pé no Bairro Novo, onde sempre alguém acabava baleado. Numa destas noitadas, Pires se engraçou com uma negrinha, mas o irmão dela não gostou e foi tirar satisfações. Pires se ofendeu, sacou a pistola e, sem pudor algum, berrou:
— Já tenho doze mortes nas costas, quer ser mais um na conta? — o irmão da moça saiu de mansinho, deixando-a para as apalpadelas do cabo Pires.
Eu não tinha motivos para duvidar desta asserção do militar, por isto, fechei o cerco sobre ele. Numa das folias noturnas, aproveitei para entrar no quarto de Pires e fuçar suas coisas, não encontrei nada que o incriminasse, mas não desanimei. Permaneci no encalço dele.

Pires e sua turma rumavam ao Bairro Novo, eu dirigia atrás. Sem aviso, o carro deles freou; fiz o mesmo, fritando os pneus e quase me chocando com o veículo à frente. Senti, então, o impacto vindo de trás, um outro carro não conseguiu frear e me ensanduichou contra o automóvel de Pires. Pensei ter sido um acidente, eu estava sangrando, mas nenhum ferimento grave. Porém, quando os rapazes saltaram dos veículos à minha frente e atrás, percebi que eu havia caído numa armadilha.
Pires abriu a porta do meu carro, pistola em mão, e me arrancou para fora.
— Por que você está me seguindo, seu corno? — ele socou a arma na minha boca.
Resmunguei.
— O quê? — Pires desrecheou minha boca.
— Eu disse que não posso explicar nada com você enfiando um revólver na minha boca — zombei.
Pires me pisou a cabeça contra o aslfato.
— É um engraçadinho! Pelo jeito, vou apagar um palhaço hoje.

Eles me amarraram a uma árvore e, até o nascer do sol, me esmurraram e repetiram a pergunta:
— Por que você está me seguindo, seu corno?
No princípio, permaneci calado, agüentando estoicamente as porradas, mas, depois, simulando haver entregado os pontos, revelei ser um jornalista investigando o desaparecimento da equipe de “O Diário Vermelho”.
— Puta que pariu! É amigo daquela turma! — um deles deixou escapar.
— Como é que você chegou na gente? — outro questionou, voz vacilante.
— Uma fonte me disse que vocês estavam de serviço no dia em que os repórteres desapareceram. Pensei que talvez vocês pudessem me dar alguma informação. Nunca imaginei que fosse apanhar tanto por causa duma matéria... — fiz-me de coitado e desentendido.
Todos riram, como seu eu os houvesse aliviado dum peso enorme.
— É um otário! — Pires concluiu — Deixa ele amarrado aí, para servir-lhe de lição.

Debati-me por horas, até que conseguir alcançar meu canivete no bolso da calça e me libertei das cordas. Mas agora eu já possuía duas certezas: Pires sabia que eu o estava seguindo; e eu já tinha certeza de que ele e os amigos estavam com os rabos mais do que presos.
Além disto, percebi que precisaria de ajuda. Liguei para Maria e avisei que o serviço ficaria mais caro do que o planejado, mas ela me deu carta branca para fazer o que fosse necessário.

Carlão e Trancoso era irmãos, sócios duma empresa de segurança. Contratavam leões-de-chácara para boates e capangas para milionários.
— Disponibilizaremos nossos melhores homens — eles me garantiram.
— Preciso de homens de confiança, vocês dois me bastam — retruquei.
Eles me asseguraram que não faziam mais trabalho pesado, que agora “só gerenciavam o negócio”, mas eles me deviam um favorzão, dívida pelos velhos e bons tempos, e acabaram concordando.
— Mas só porque é você, Vico, se fosse outro, a gente batia o pé e era não.

Pegamos o pobre Tíbuli quando ele voltava do quartel, encapuzamo-lo e o metemos no porta-malas do carro. Depois, foi a vez de Pires. Molhamos a mão duma puta, que o atraiu para fora do arrasta-pé e, num barranco, enchemos o cabo de porradas e o jogamos na traseira para fazer companhia a Tíbuli.
Levamo-los para um galpão abandonado e foi a nossa vez de atuarmos como verdugos. Pires resistia, mas, após alguns safanões, Tíbuli abriu o bico:
— Eu não queria matar aquelas pessoas! Eu não queria! — chorava feito uma maricas — Foram ordens!
Ele revelou, então, que quem comandou a operação havia sido o sargento Brandão, sob ordens diretas do Coronel Castro e Silva.
— E onde os corpos foram enterrados? — perguntei.
Mas Tíbuli não sabia, alegava que sepultá-los havia sido incumbência do cabo Pires.
Como o colega já havia entregado tudo, Pires não via mais razão para ficar apanhando calado.
Prometeu nos mostrar as covas, numa fazenda a quilômetros da cidade.

Os dois milicos passaram à noite abrindo a enorme vala comum, iluminados apenas pelos faróis do automóvel. Os corpos já estavam em avançado estágio de decomposição, mas ainda seria possível reconhecê-los.
Deixei Carlão e Trancoso cuidando dos assassinos e dirigi até um posto de gasolina, de onde liguei para Maria, avisando que, infelizmente, havíamos encontrado o filho dela, e fiz uma segunda ligação, ciente de que era este o único modo de atingir a alta cúpula do Exército.

Nas primeiras páginas dos maiores jornais do país estava estampada uma foto enorme de Maria, ajoelhada ao lado do cadáver do filho, chorando. Dois dos assassinos estavam amarrados e amordaçados, logo ao lado da vala comum. Os jornais se questionavam sobre quem seriam “os vingadores misteriosos” que solucionaram este massacre e apresentavam os nomes de vários outros suspeitos, incluindo o sargento Brandão e o coronel Castro e Silva.
A primeira peça a cair foi Brandão, indiciado por múltiplos homicídios; os outros perpetradores do crime foram exonerados e julgados por júri popular; coronel Castro e Silva foi rebaixado e enviado para assumir um cargo no interior, mas logo o caso foi abafado e esquecido.

Alguém bateu à porta do meu escritório e mandei entrar. Ao ver a figura, logo a reconheci, apesar de apenas tê-la visto nas manchetes.
— Você é o detetive Vico? — o visitante perguntou, mas eu só traguei meu cigarro e sorri — Estamos de olho em você, seu desgraçado. Sua hora vai chegar! Vai ter paga! — e partiu.

“Vai ter paga!”, quantas vezes não ouvi isto?
— Estarei esperando... — sussurrei, espiando, pela persiana, Castro e Silva sumindo num carro de luxo.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

O Inventariante (Conto)

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Vico parte ao encalço dos ladrões de valiosíssimos diamantes

— Você já procurou a polícia? — perguntei a Isaac Rubinstein — Um roubo deste é algo muito grande.
O judeu ajeitou os óculos, pigarreou e respondeu:
— Entenda, Vico, aqueles diamantes valem cinco milhões... Não é o tipo de assunto que se pode pôr nas mãos de qualquer um.
Fiquei feliz, pelo menos, na mente deste sujeito, era não era qualquer um. De onde ele supunha que podia confiar em mim, não sei.
— Conte-me, então, como tudo aconteceu.
Rubinstein iniciou a narrativa do crime.
Havia sido um dia tranqüilo na joalheria. No fim do expediente, dois senhores bateram à porta e lhes foi concedida entrada. Alegavam possuir um raro diamante e queriam a avaliação de Isaac. Sentaram-se e Isaac pediu para ver a preciosidade. Um dos homens retirou do casaco uma pistola, dando voz de assalto. Isaac tentou fugir, mas foi detido pelos senhores, que o nocautearam. Quando despertou, eles haviam levado apenas um item do cofre da joalheria, uma caixa contendo centro e trinta e dois diamantes. Nada mais foi tocado.
— Há algo em especial no que foi roubado, Isaac, excetuando o valor?
O judeu hesitou.
— Não, detetive, nada que eu saiba.

Um crime desta magnitude não é realizado sem deixar rastros, antes e depois de sua execução. A primeira providência foi visitar a joalheira de Isaac e entender o sistema de segurança do estabelecimento. Tudo era muito rudimentar. A porta dianteira tinha duas folhas, uma grade de ferro que se abria para fora, quando autorizada a entrada, e uma de vidro para dentro. O local era pequeno, poucos metros quadrados, uma mesa e três cadeiras, onde Isaac vendia suas jóias e pedras preciosas e comprava artigos. Atrás, no fundo da saleta, uma porta, também de metal, fechada a cadeado.
— O que há atrás daquela porta, sr. Rubinstein? — indaguei.
— É onde fica o cofre.
— Havia algum sinal de arrombamento?
— Nenhum, nem no cadeado, nem no cofre.
Pedi para que ele abrisse a porta e me mostrasse o cofre.
— Alguém mais possui a combinação?
— Apenas minha filha, que trabalha comigo, às vezes.
Rebeca era uma moça linda, vinte e poucos anos, e, pelo que tudo indicava, um belo corpinho sob aquele vestido de judia recatada.
Respondeu-me com esquivas, e tive a impressão de que ela estava escondendo algo. Porém, o ar angelical da moça me convencia de que esta aura subterfugiosa era apenas um traço da personalidade dela.
Em seguida, passei a interrogar os lojistas vizinhos da joalheria. Poucos notaram algo anormal, inclusive no dia em que Isaac foi assaltado. Abraham, o dono do restaurante Kosher e amigo de Isaac há anos, foi quem achou estranho a demora do amigo em encerrar o expediente e bateu à porta da joalheira.
— Isaac é sempre muito pontual. As luzes da loja estavam acesas e já era tarde. Vi dois homens saindo — o restaurante de Abraham é em frente à joalheria —, mas não pensei que fossem assaltantes. Bem vestidos, loiros e olhos azuis. Isaac sempre recebe clientes da alta sociedade, pensei que fossem mais uns deles.
Esta informação, que já havia recebido de Isaac, mas reiterada por Abraham confirmou minha hipótese de que não se tratava dum bando de pé-rapado.
Bandidinho chulé briga por ponto de venda de drogas, por causa de território, rouba caminhão em beira de estrada, ou, no máximo de sofisticação, tenta assaltar um banco. Mas não é do feitio desta corja obter informação sobre diamantes que valem cinco milhões, guardados num cofre fajuto dum judeu qualquer nesta área da cidade.
Havia duas possibilidades: os bandidos tinham conhecimento prévio, por qualquer razão que fosse, de que o joalheiro guardava os diamantes, ou eles receberam esta informação de alguém de confiança de Isaac, ou, mais improvável, do próprio Isaac.
A família de Rubinstein era pequena, pois a maior parte dela havia morrido em Treblinka. Dos sobreviventes contávamos cinco, Isaac, Rebeca, o irmão Solomon, uma tia louca chamada Esther, e o sobrinho Jacob.
A princípio, poderíamos excluir Esther, enclausurada num quarto e na insanidade.
— Quem mais poderia saber dos diamantes?
— Minha filha e Solomon o sabiam, mas eles estão acima de qualquer suspeita.
— E seu sobrinho Jacob?
— Ele é um rapaz trabalhador. Não precisa roubar para vencer na vida.
Ou seja, de acordo com Isaac, apenas o irmão e a filha tinham ciência do que havia no cofre. Eles eram minhas principais suspeitas.

Dividi minha investigação em duas frentes. Como o tempo era escasso e, fatalmente, os diamantes desapareceriam em poucas semanas, tive de descobrir quais eram as rotinas de Solomon e Rebeca ao mesmo tempo.
A do primeiro era simples: Solomon era um rabino, acordava cedo, ia para a sinagoga, realizava casamentos e os serviços diários, à tarde, se dirigia a bairros pobres da cidade para trabalhos de caridade. Bastou-me seguí-lo durante três dias para descobrir que Solomon era um homem irreprochável.
Rebeca trabalhava, às vezes, com o pai na joalheria, porém, na maioria dos dias, ela permanecia em casa, perfazendo tarefas domésticas. Nada extraordinário também. Até que, numa manhã, um negrinho bateu à porta da casa de Isaac com um papel na mão. Rebeca atendeu e, escondendo um sorriso, apanhou o bilhete e deu uns trocados ao moleque.
Segui o mensageiro, que, em passo apressado, correu para a barbearia de Elijah, onde Jacob trabalhava. Pela vidraça, o menino fez um sinal de OK e desapareceu rua abaixo. Então, os olhos de Jacob se encontraram com os meus, ele fingiu que não havia me reconhecido.

Os dias seguintes redundaram em nada. O negrinho não trouxe mais bilhete algum, e Rebeca e Jacob (eu o havia incluído na lista dos suspeitos) não esboçaram comportamento estranho.
— Sr. Rubinstein, sinto ter de lhe dizer que não tenho pistas de quem roubou seus diamantes — disse a Isaac, diante de toda a família reunida na mesa de jantar — por isto, estou suspendendo as investigações. Sugiro que procure a polícia.
O desespero no semblante de Isaac Rubinstein não me comoveu, pois eu tinha razão.

O carro à minha frente rasgava o breu da noite. Dirigíamos há quase uma hora pela estrada, eu mantendo certa distância, para não levantar desconfiança. O automóvel deu sinal que viraria à direita e penetrou numa estrada de terra, segui-o. Apesar do risco de sair da estrada, achei melhor apagar os faróis e me aproximar do carro, tendo as vermelhas luzes traseiras dele como minha única orientação.
Por duas ou três vezes, tive medo de ter me perdido dele, pois a poeira quase ofuscava os faróis. Colado ao volante, como se fosse um míope, eu tentava me manter no encalço.
Avistei, mais adiante, outro automóvel, estacionado numa clareira na mata. Freei. O carro a minha frente continuou em direção à clareira e também parou. Manobrei e escondi meu automóvel entre árvores, depois, segui à pé até a clareira, oculto no matagal.
Iluminados pelos faróis estavam quatro pessoas, dois homens altos, loiros e com casacos de couro, passageiros do veículo que já estava aguardando neste local ermo, e Rebeca e Jacob, aqueles a quem eu estava seguindo pela estrada.
— Trouxeram o dinheiro? — um dos senhores loiros perguntou.
— Sim — Jacob se adiantou e pôs uma valise no chão — Está aqui.
O outro senhor se aproximou da valise e a apanhou, deixando uma outra maleta no local. Por sua vez, Rebeca correu e se apoderou dela.
— Então, está cumprido o nosso trato, nesta mala está uma parte dos diamantes, como o combinado.
Jacob e Rebeca já estavam se preparando para retornar ao carro, quando o senhor que estava em posse da valise gritou:
— Esperem! Este dinheiro é falso! — jogando para fora da maleta, aberta sobre o capô do carro, uma chuva de papel picado.
Possivelmente, este era o plano de Rebeca e Jacob, pois este se voltou e, com um revólver em mãos, disparou seis vezes, derrubando os dois senhores.
Rebeca se precipitou em direção aos cadáveres, apalpando-os, mas, não encontrando o que procurava, abriu a porta do carro dos mortos e retornou, saltitante, com uma sacola.
— Está tudo aqui, Jacob! — ela gritava.

Eles rumaram a um hotel de beira de estrada e se hospedaram no segundo andar. Aguardei algumas horas, subi e bati na porta.
— Tem alguém aí fora — ouvi Rebeca sussurrando.
— Não se preocupe, amor, ninguém sabe que estamos aqui — e, ao dizer isto, Jacob abriu uma fresta. Aproveitei e dei uma ombrada na porta, lançando o rapazola dois metros para trás, retirei a arma da cintura e nos tranquei no quarto.
Jacob, desesperado, se arrastou, braço estendido, tentando alcançar as calças (ele estava só de cuecas), onde jazia o revólver dele.
— Parado aí, guri, se não quiser levar chumbo na bunda! Eu vi o que vocês fizeram no mato, por isto, não hesitarei em te encher de bala — Jacob entendeu o recado, pois se virou e, aterrorizado, me fitava. Rebeca, assustada, tentava cobrir seus seios, também estava seminua, apenas vestindo uma calçola.
— Senta do lado dele — eu a agarrei pelos cabelos e a joguei no chão, para perto de Jacob. Puxei uma cadeira, onde me sentei, arma apontada para os dois.
— Podem começar a falar, porque não estou entendendo nada.
— Nós é que não estamos entendendo — Rebeca gaguejava — Você disse para papai que não iria mais investigar o roubo dos diamantes. Como nos encontrou?
— Cala a boca, sua vadia — meti a mão na cara de Rebeca — Quem quer explicações aqui sou eu!
A história que Rebeca e Jacob me contaram era das mais interessantes. Na verdade, o verdadeiro nome de Isaac Rubinstein era Isaac Cohen, judeu alemão, prisioneiro de guerra. Cohen era um industrial influente e, graças a seus contatos, conseguiu evitar que sua família fosse enviada para campos-de-concentração e, além disto, recebeu a honrosa ocupação de inventariar os bens confiscados dos judeus aprisionados. Posição que atraiu ódio entra a comunidade judaica — Cohen era um traidor de primeira categoria, o inventariante do mesmo regime que propunha a “solução final”, o completo extermínio da raça judaica do planeta.
No entanto, quando a guerra começou a ser perdida, nem mesmo os amigos influentes de Cohen evitaram que a ordem para execução dele e de sua família fosse expedida. Cohen subornou os guardas com jóias e ouro, que ele sorrateiramente havia acumulado nos anos como inventariante, e conseguiu a liberação de apenas duas pessoas, dele e de mais alguém. Que decisão difícil não deve ter sido para Isaac Cohen decidir quem escolher dentre seus familiares, seus pais, seus irmãos, sua esposa, seus dois filhos e a menina recém-nascida!
Sua esposa implorou:
— Isaac, salve Rebeca...
E foi o que ele fez, fugiu da Alemanha para a França livre e, de lá, quando a Guerra terminou, deixou a Europa, instalando-se como um humilde joalheiro nesta cidade imunda. Reencontrou os poucos parentes que sobreviveram, a irmã, a tia e o sobrinho, e tentou esconder o segredo que o assombrava todos estes anos. Os diamantes? Restos dos espólios do tempo de inventariante, relíquias do sangue da sua raça.
— Meu pai é um desgraçado! Um covarde! Deixou que minha mãe e meus irmãos morressem. Ele tinha todos estes diamantes com ele, e, ao invés de utilizá-los para comprar a liberdade dos outros, o ganancioso preferiu guardá-los, a custo da morte da mulher e filhos! É um verme! — berrava Rebeca enfurecida.
No fundo, eu entendia a indignação da jovem.
— Então, certo dia, dois senhores bateram à porta e conversaram comigo. Diziam conhecer meu pai e alegavam que ele tinha em seu poder um bem valiosíssimo e que eles o queriam de volta. Eram alemães, do alto comando nazista. Disseram-me que me venderiam uma parte por um ótimo preço e que eu ficaria rica, eu precisava apenas dar acesso a eles que o serviço seria realizado. Foram eles que me contaram a história de meu pai e o que ele fez durante o tempo de guerra.
Provavelmente, ela e o primo já estavam apaixonados, junto deliberaram como conseguir permitir o roubo os diamantes. Rebeca havia lhes entregado a chave do cadeado da saleta e a combinação do cofre, mas ela não tinha a chave da entrada, somente o pai possuía uma cópia e, por isto, os alemães tiveram de roubar os diamantes durante o expediente.
— A princípio, achei uma boa idéia. Todavia, eu e Jacob refletimos: por que ficar com uma pequena parte se nós podemos ficar com tudo? Corremos o risco. Combinamos um local para nos encontrarmos com os senhores alemães e levamos o dinheiro falso. Bem, você disse ter visto tudo, então, sabe qual foi o resultado.

— Você é incrível, detetive Vico, conseguiu recuperar meus diamantes! — Isaac ostentava um sorriso de orelha a orelha.
— Eu lhe disse que conseguiria.
— E minha filha e sobrinho estavam realmente envolvidos? — Isaac indagou, preocupado.
— Sim, mas eles foram enganados pelos nazistas. Não sabiam o que estavam fazendo. Os dois fugiram, com medo de qual seria sua reação.
— E os alemães?
— Mortos. Não mais o incomodarão.
Isaac se levantou e apertou minha mão.
— Serei eternamente grato, Vico. E, se um dia minha filha voltar, eu estarei de braços abertos. Um pai sempre perdoa.

Quarenta minutos depois, recebi um telefone no meu escritório, era Isaac:
— Vico, estão faltando dez diamantes!
— Não sei, não os contei — respondi secamente.
— Mas eu contei, estão faltando dez pedras!
— Esqueça, Isaac, se não estão aí, então você nunca os encontrará, os alemães devem tê-los escondido — e desliguei, não estava com saco para agüentar aporrinhação.
Fiz o cálculo mental, se todos os diamantes valiam cinco milhões, dez daquelas pedras eram estimadas em quase trezentos e oitenta mil pratas. Uma puta grana! Rebeca e Isaac poderiam viver muito tempo com este dinheiro, era só não fazer mais nenhuma merda.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Obra do Diabo (Conto)

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Vico desmascara um santo homem

As manchas de sangue na cueca de Marquinhos causaram estranhamento. A mãe, ingênua, primeiro pensou que pudesse ser alguma infecção. Há anos que Joana não dava banho do filho, mas insistiu; porém, constrangido, Marquinhos, com treze anos, discordou.

— Que isto, mãe! Já sou quase um homem. Que negócio é este de querer dar banho em mim.
Joana conversou com amigas e nenhum delas sabia o que dizer, até que Flávia comentou, embaraçada:
— Uma vez, eu e meu marido fizemos por trás... Depois, por alguns dias, saiu sangue de lá.
As mulheres riram, descartaram esta hipótese, pois Marquinhos era homem e homem não dá o rabo. E, além disto, quem estaria enrabando Marquinhos?
No entanto, tal conjetura não abandonou Joana. Passou a bisbilhotar Marquinhos, quando ele estava com amigos, com quem andava no colégio. Nada que pudesse indicar um comportamento estranho. Foi por isto que Joana me procurou, para descobri quem estava comendo Marquinhos.
Obtive as mesmas conclusões dela, não eram os amigos, nem colegas de escola, Marquinhos tinha, inclusive, uma namoradinha no colégio, e dava belos amassos na garota durante o intervalo do recreio, mãos no peitinho e dentro da calcinha.
Santo o rapaz não era, e isto já era um bom começo.

Marquinhos tinha a rotina comum dum menino da idade dele: ia à escola durante o dia, jogava futebol no cair da tarde, flertava com a namoradinha à noite, jantava com a família, era coroinha nas missas de domingo.
“Tente enxergar o óbvio, Vico!”, eu dizia a mim mesmo.
Depois da missa, Marquinhos acompanhava o padre até a sacristia e desaparecia por quase duas horas.
Estaria acontecendo algo inusitado neste tempo? Além disto, caso minhas suspeitas se confirmassem, não seria nada fácil incriminar um bispo influente como Dom Francesco.
Fui à missa no domingo, e, se minha carreira de detetive não houvesse me preparado para a espera e a monotonia, certamente teria dormido com a ladainha em latim de Dom Francesco.
O culto foi encerrado e bispo e coroinha se retiraram para a sacristia. Os fiéis deixavam a igreja, enquanto eu me esgueirava por entre eles para alcançar o altar e descobrir o que se sucederia.
Na sacristia, havia uma porta que conduzia a um prédio anexo, onde se localizava a residência do bispo. Cheguei a tempo para vê-los entrar por esta porta e trancá-la.
Na semana seguinte, fui mais esperto. Dom Francesco rezava a missa, aproveitei para me infiltrar na sacristia e ingressar no alojamento do bispo, uma cela decorada com suntuosidade, ao invés do esperado ascetismo. Escondi-me no guarda-roupa, cuidando para deixar aberta uma fresta por onde assistir ao que estava por vir.
Após um quarto de hora, Dom Francesco e Marquinhos entraram na cela. Este ajudou o bispo a retirar a batina, logo percebi que o santo homem estava com o pau ereto. Fez um sinal para Marquinhos, que se ajoelhou e passou a chupar o padre.
Aquilo me fez ter engulhos, se eu não estivesse escondido, teria vomitado ali mesmo. Mas esta cena seria apenas a primeira dos absurdos que presenciei. Depois, dum baú, o bispo retirou um açoite e o entregou a Marquinhos:
— Você sabe o que fazer — Dom Francesco disse, então, virou-se para o rapaz e se preparou para ser flagelado. Marquinhos fazia o chicote estalar nas costas e nádegas do padre, que gritava, descontrolado — Mais, mais, mais!
Em seguida, Marquinhos enfiou o cabo do chicote do cu do padre, para grande deleite deste (e desespero meu). Por fim, o bispo se voltou e foi a vez dele sodomizar o garoto. As manchas de sangue na cueca estavam explicadas.
Marquinhos recebeu uma bela quantia de dinheiro do bispo e partiu. Dom Francesco adormeceu, em êxtase. Pude, enfim, deixar aquele antro.

— Dom Francesco? Não é possível! — Joana se descabelava, roendo as unhas — Você tem de estar errado... Por favor.
— Entendo que você não queira acreditar. Por isto, eu lhe direi como proceder. Somente assim você livrará seu filho deste pervertido.

No domingo, na hora do almoço, a polícia e jornalistas cercaram a residência do bispo. A polícia invadiu a cela e apanhou Dom Francesco e Marquinhos em flagrante.
Sob o flash das câmeras da imprensa, o bispo berrava, justificando-se:
— Isto foi obra do diabo! Obra do diabo!

Recordei-me de meu avô, com sua simplória sabedoria, que sempre repetia: “O diabo está em nós”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Roleta-Russa (Conto)

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Vico enfrenta um violento cafetão

Quando li a manchete no jornal — “Cafetão morto com 152 facadas” — não pude deixar de pensar em minha participação nisto.


Eu havia acabado de deixar o escritório e mergulhei no chuvisco gelado. Abaixei a aba do chapéu e ergui a gola do casaco para me proteger da garoa, quando fui abordado por uma moça, envolta num sobretudo de couro, tremendo de frio.
— Lembra-se de mim, Vico?
O rosto dela me era familiar.
— Jen? — arrisquei.
Ela riu e se lançou em meus braços.
— Aceita um café? — perguntei, e fomos até uma cafeteria.

— A vida não tem sido fácil, Vico — Jen me contava. Ao contrário da maioria das mulheres que passaram pela minha vida, eu não havia trepado com Jen. Ela era filha dum antigo amigo, morto num assalto. Depois do assassinato dele, a família se desintegrou. A esposa cometeu suicídio, dois anos depois. O filho se envolveu com drogas, atualmente, cumpre pena na Penitenciária de Columbus; e a filha, Jen, afundou-se na prostituição.
— Seu pai foi uma grande perda... — externei, mas não era sobre isto que ela queria falar.
— Você soube do caso da prostituta assassinada? — Jen indagou.
— Ouvi rumores.
Havia aparecido nos jornais. Alguém caçava nas matas circundando a cidade e seus cães farejaram algo. Cavaram perto duma árvore e encontraram um cadáver em decomposição. Estava lá há três semanas. Reconheceram-no como sendo duma prostituta, especularam que poderia ser vingança, ou um tarado qualquer. Nada extraordinário nestes nossos dias insanos.
— Ela era minha amiga, Vico. Eu tenho quase certeza de quem foi o desgraçado que a matou, mas não tenho como confirmar isto. Por favor, eu lhe peço que me ajude — Jen tirou do bolso um maço de dinheiro e o deslizou por sobre o tampo da mesa.
Beberiquei o café e apanhei o dinheiro. Até pensei em rejeitar a grana, prestar uma homenagem ao finado pai da moça, mas eu não podia me dar este luxo.
— Realmente, a vida não anda nada fácil, Jen.

O suspeito da moça era um russo chamado Grigor Ivanovich, alcunhado “O Roleta”. O apelido devia-se ao estranho hábito que ele tinha de flertar com a morte. A grande diversão de Grigor era brincar de roleta-russa. Cultivava este hábito há anos e escapou de explodir os miolos uma dezena de vezes. Na última ocasião, tão conhecedor desta arte, ao ouvir a combustão da pólvora, ele conseguiu desviar a arma em fração de segundos e sobreviveu com uma cicatriz que lhe cortava a cabeça dum lado ao outro das têmporas. “Eu tinha certeza que, naquela noite, eu deveria ter morrido. Como escapei, acho que não morro mais”, Roleta propagava entre os amigos.
Roleta era uma figura conhecida. Bastou eu chegar na Cidade Baixa para encontrá-lo, flanando pelas esquinas, dando esporros nas putas, gerenciando seu negócio, recolhendo a grana dos programas.
De todas as maneiras possíveis para proceder a investigação, refleti que uma abordagem direta seria mais eficaz, assustaria o cafetão e não me faria perder muito tempo, pois o dinheiro pago por Jen não era dos mais vultuosos.
— Você é O Roleta? — perguntei logo, tentando intimidá-lo.
— Sou eu. E você, o que quer? — Grigor retrucou na mesma moeda.
— Tenho um particular contigo, sobre uma das suas meninas.
Ele devia estar acostumado a receber clientes insatisfeitos com as putas, que queriam o dinheiro de volta, ou porque foram roubados. Grigor me puxou para um beco.
— Vai falando — ele me encarava.
— Chegou aos meus ouvidos que você matou uma das garotas que trabalhavam pra você — fui claro.
Roleta arregalou os olhos, como se um grande segredo houvesse sido desvelado. Ele pôs as mãos no bolso.
— E eu tiver feito isto? O que você tem a ver?
Provavelmente, Roleta deveria estar armado, por isto, a primeira atitude seria privá-lo do brinquedo. Desferi um soco em Grigor, quebrando-o o nariz, avancei e imobilizei o braço dele, aproveitando para esfregar a cara do bastardo na parede do beco. Sem força no braço, ele deixou cair o revólver.
— Pode contar tudo — sussurrei no ouvido do cafetão.
Mas o canalha não era nenhum bundão. Ele começou a se debater, acertou uma cabeçada na minha boca e, muito mais jovem e forte do que eu, se libertou. Com o jogo invertido, ele me esmurrou, pisoteou-me e cuspiu na minha cara, encurralando-me cada vez mais no beco.
Juro que tive medo daquele homem, nariz ensangüentado e ódio no olhar. Roleta sacou uma faca, vinha em minha direção. Eu, no chão, me arrastava para trás, para fugir daquele assassino.
— Você deve ser muito imbecil mesmo, para vir no meu território, tirar satisfação do que faço ou deixo de fazer. Aqui, seu viado, sou eu quem manda! Aquela vagabunda morreu porque era uma puta desgraçada. Me roubava, mentia pra mim, fazia tudo pra me sacanear. Tudo tem limite. Uma hora, meu saco encheu e dei fim nela. Qual o problema? Estas putas não servem pra nada mesmo!
Pelo menos, eu já tinha uma confissão do Roleta. Puxei a arma da cintura e apontei pra ele. Foi então que vi alguns vultos atrás do Roleta.
— Vico, levante-se e vá embora. Já sabemos o que queríamos saber — era a voz da Jen.
Ergui-me e vi uma vintena de prostitutas, canivetes, punhais e navalhas nas mãos. Agora o assunto era entre Roleta e elas; agora, ele descobriria pra quê as putas serviam.
Ouvi gritos de horror e dor ao sair do beco.

Na manhã seguinte, a tal manchete no jornal.

Esbarrei-me em Jen alguns meses depois, pelas mesmas ruas da Cidade Baixa. Agora, quem desfilava pelas esquinas metendo medo nas putas era a própria Jen, ela havia assumido o comando.
— Agora entendi tudo, menina — comentei, sem conseguir conter o riso — Você me usou para poder assumir o lugar do Roleta.
— Tudo que sobe, desce, Vico. As garotas estavam insatisfeitas, só precisavam dum estímulo. Não tinham coragem. Precisavam dum homem como você para servir de estopim.
— E você está tratando as meninas melhor? — questionei.
— Nem melhor, nem pior. Eu as trato do que jeito que elas merecem — Jen respondeu, como se houvesse nascido cafetina.
— Mas se cuide para que você não tenha o mesmo fim do Roleta, toda furada.
— É como dizem, Vico, o mundo roda, mas sempre volta para o mesmo lugar.

sábado, 18 de agosto de 2007

Amor Fraternal (Conto)

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Uma estranha investigação retorna para assombrar Vico

Meu pai tinha hábito de fumar na cama. Certa vez, ao retornar bêbado para casa, ele se deitou, acendeu um cigarro e dormiu. Despertamos com o apartamento em chamas, minha mãe com queimaduras de terceiro grau em 15% do corpo.
Desde então, tenho sono leve.
Por isto, ouvi nitidamente quando a porta da espelunca onde moro rangeu, e o sapato de salto alto se aproximou da minha cama. Eu não estava esperando ninguém, por instinto, deslizei minha mão para debaixo do travesseiro e encontrei meu revólver. Entreabri os olhos.
Uma mulher, vestida de preto, chapéu de largas abas, apontava um calibre 28 para minha cara, chorava.
— Posso ao menos saber por que vou morrer? — tive a presença de espírito de perguntar.
— Deixe de ser ridículo, Vico, existem milhares de razões para te quererem morto! Cada um daqueles que foram prejudicados por suas bisbilhotices.
Bem, estávamos chegando a algum lugar.
— E como eu te prejudiquei? — soergui a cabeça, mão sob o travesseiro.
— Não se lembra, seu escroto? — a mulher devolveu-me a questão, enfurecida — É claro que não! Para você, tudo se resume a dinheiro. Você cava os podres alheios, conclui sua investigação, e o resto que se exploda. Não espera para assistir os resultados.
— Acho que você não estaria aqui hoje se fosse uma virgem sem pecados, não é?
— Mentira, seu porco! Você arruinou minha vida! Fez meu marido se voltar contra mim, e tudo fundado numa mentira!
Porém, eu ainda não me lembrava deste caso.
— Você disse a meu marido que eu tinha um amante, mas você me fotografou com meu irmão.
Vago demais.
— Eu havia ido até o apartamento dele, ele precisava de dinheiro, meu marido não gostava dele e não podia saber que eu o estava ajudando. E você tirou fotos nossas nos abraçando, e disse a meu marido que éramos amantes.
Agora eu estava começando a me recordar. O marido tinha certeza de que ela tinha um caso: eles não transavam mais, porém, sempre havia manchas de porra nas saias e calcinhas dela. Ele jurava que a mataria quando confirmasse isto, pelo visto, não a matou.
— Vocês não eram irmãos, vocês se beijaram na boca. Eu estava num bom ângulo, pela janela, pude ver e fotografar tudo. Vocês se beijaram assim que entraram no apartamento, depois, ele abriu sua blusa e apalpou seus seios. A luz da sala se apagou e vocês foram para o quarto. Lá, ele também se despiu e a pegou por trás. Agora me lembro claramente. Vocês não eram irmãos.
— Não seja ridículo! Nós somos irmãos, você não sabe o que é amor fraternal!
Aquilo era grotesco, se eles fossem realmente irmão... Não, não dava para conceber isto!
— Eu sei bem o que fotografei, e aquilo não era nenhuma demonstração de amor fraternal — retruquei.
— Você com estes seus valores burgueses... É deprimente!
— Deprimente é uma vadia que trepa com o próprio irmão vir me falar de valores, ainda mais com uma arma apontada para mim.
Não sei o que se passava na minha cabeça quando eu disse isto, mas, com certeza, eu não esperava que isto a estimulasse a apertar o gatilho. Elas disparou duas vezes, o primeiro tiro desapareceu no colchão, o segundo atingiu meu braço, mas minha arma estava na outra mão, então, reagi e a acertei com quatro disparos, um na cabeça e os outros no torso. Aí está a diferença entre quem sabe o que faz.
A gritaria começou no corredor, gente vinha espiar o que estava acontecendo, a polícia foi chamada. Eu não tinha com que me preocupar, legítima defesa, eu estava no meu apartamento, ela atirou primeiro.
No entanto, minha mente não se acalmava. Eu nunca havia matado uma mulher antes, e isto é o tipo de coisa que não se esquece facilmente. Mas, mais do que isto, o bizarro relacionamento entre irmão e irmã me inquietava.
A polícia me interrogava, os peritos tiravam foto do cadáver, um paramédico fazia um curativo no meu braço, e meus pensamentos vagavam. Há tanto neste mundo, tantos comportamentos, tantas pessoas diferentes, tabus e transgressões.
Viverei, mas não verei tudo.


quinta-feira, 16 de agosto de 2007

A Enfermeira e o Sargento (Conto)

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Vico investiga um amor em tempos de guerra

— Então vocês se conheceram durante a guerra? — eu segurava as cartas, escritas em letra miúda e ligeira.
— Sim, detetive Vico. John estava aquartelado em Liége, e eu estava na mesma cidade com o Corpo de Enfermeiras do Exército. Um amigo dele foi baleado durante um ataque alemão e John o levou até o hospital. Foi quando nos conhecemos.
— Amor à primeira vista, imagino? — eu ri.
— Eu sei que pode parecer tolice, detetive, mas foi exatamente isto. Em meio a tanta desgraça, quando meus olhos se encontraram com os de John, descobri que havia encontrado o homem da minha vida.
— E você não tentou procurá-lo depois de a guerra haver acabado?
— É aí que está o problema, eu nem saberia por onde começar. Nós trocamos correspondência quando John foi deslocado para Antuérpia, mas, depois de um mês, não recebi mais resposta alguma dele. Não tenho idéia de onde ele possa estar.
— Você tem noção de que este tipo de investigação pode custar caro, Linda?
O semblante dela denunciava que ela não entendia o porquê do alto custo.
— Se ele estiver vivo, talvez eu seja obrigado a me deslocar para outras cidades, atrás de alguma pista do paradeiro dele.
— Ah sim! Mas não precisa se preocupar... Minha avó faleceu recentemente e me deixou um dinheirinho. Eu pretendia fazer outras coisas com ele, mas se for para encontrar John, vale a pena.
— Já faz tanto tempo que a guerra acabou, o que você espera descobrir sobre John?
— Não sei... — as mãos de Linda tremiam — Eu esperei por ele todos estes anos... Gostaria de saber que ele também fez o mesmo.
O ser humano é um bicho curioso, vive por causa de sonhos, é avesso à realidade.
— E se ele não a houver esperado? — indaguei, por mera curiosidade.
— Ah, detetive, o meu John me esperaria!

Fui ao arquivo do Exército naquela mesma tarde, uma gorda de óculos estava sentada numa escrivaninha. Quando eu abri a porta, ela me olhou de cima a baixo, fulminando-me. Aproximei-me, a gorda fingia indiferença.
— Que lindos brincos os seus... — comentei, nada melhor do que jogar com a vaidade feminina, pois até aquela mulher horrenda deveria ter um pingo de vaidade.
A gorda abriu um sorrisão.
— Você acha?
— Claro que sim. Eles combinam com seus olhos — neste ponto, eu não precisava mentir, os olhos azuis da gorda eram a única coisa bela naquele corpanzil.
Os olhinhos piscaram contentes.
— Como posso ajudá-lo? — ela sorria, numa mudança drástica de comportamento.
— Eu estou procurando por um sargento. Ele era da minha Companhia, e eu gostaria de obter informações sobre o paradeiro dele.
— Claro, claro. Qual o nome dele?
— John Morris.
Com sofreguidão, a gorda se levantou e entrou numa saleta envidraçada, revirou alguns arquivos e dum deles retirou duas pastas.
— Há dois sargentos com este nome — ela retornou — um da Divisão de Engenharia, morto em combate em Antuérpia, outro do Corpo de Pára-quedistas, ferido em combate também em Antuérpia.
— Estranha coincidência, não? — resmunguei.
Ela me estendeu as pastas:
— Reconhece algum deles?
Os dois Johns eram bastante parecidos. Cenho franzido, neguei.
— Eu não saberia dizer, após todos estes anos. A memória é traiçoeira...
A gorda sorriu.
— Faz-me um favor? — perguntei — Posso ter uma cópia destes documentos?
Imediatamente a gorda se postou diante da máquina-de-escrever e me datilografou uma cópia.

Encontrei-me com os pais dele:
— Como sentimos falta do nosso John — eles murmuravam incessantemente, sempre que eu mencionava o nome do filho. Porém, eles nada sabiam sobre um relacionamento amoroso entre John e uma enfermeira, durante a guerra. Até acharam estranho o fato, pois John tinha uma namorada, para a qual escrevia cartas quase que diariamente.
Porém, eu não estranho nada; quantos casos não investiguei de maridos que dizem a cada quinze minutos que amam as esposas, e repetem o mesmo com as amantes?

O outro John Morris morava, segundo o arquivo, há trezentos quilômetros. Jantei num restaurante de beira de estrada e viajei durante a noite.
Cheguei cedo à casa de dois andares, varanda e cachorro latindo no quintal. Bati à porta e fui atendido por uma mulher.
— Procuro por John Morris. Ele mora aqui?
— Sim, vou chamá-lo — foi a resposta. A mulher desapareceu e logo surgiu um senhor, por volta dos quarenta anos, claudicando e auxiliado por uma bengala.
— Olá, Sr. Morris, meu nome é Vico e eu sou repórter da “Tribuna de Notícias”. Estou preparando uma reportagem sobre veteranos de guerra e encontrei seu nome nos arquivos do Exército. Você se importaria em responder algumas perguntas?
John Morris aquiesceu, até com um certo lisonjeio.
Sentamo-nos na varanda e a esposa dele nos trouxe um refresco, mas teve o bom tom de nos deixar a sós.
John Morris me contou sobre como seu pelotão de pára-quedistas saltou atrás das linhas alemãs, foram cercados, escaparam, se reagruparam e conseguiram minar as defesas inimigas, depois sobre sua participação da Batalha do Bulge, quando as forças do Eixo tentaram um contra-ataque e ele, em Antuérpia, foi alvejado por um tiro de fuzil na perna e afastado do combate. Eu, por minha vez, falei do tempo em que servi na Marinha, na Campanha do Pacífico e como torpedeamos encouraçados japoneses. É óbvio que não falei que fiquei na ativa por apenas três meses, e, depois, passei quase um ano numa prisão militar por insubordinação, pois este não é o tipo de coisa que um sargento condecorado gostaria de ouvir.
Em pouco mais de uma hora, eu e John já éramos praticamente amigos de infância.
— E me diga uma coisa, John, — perguntei — e sobre os amores de guerra, foram muitos?
Pela primeira vez, notei que havia tocado uma ferida aberta; o olhar de John se embaciou, desaparecendo no horizonte.
— Muitos? Não, apenas um — havia tristeza na voz dele.
— Importa-se em me contar como foi?
Foi então que me certifiquei de que este John Morris era o John Morris que eu estava procurando, o amor desaparecido de Linda. O que se seguiu não foi novidade, eles se encontraram no Hospital em Liége, fizeram amor pela primeira vez entre os escombros duma casa, corresponderam-se e ele foi ferido em batalha.
— Mas entenda, Vico, eu tinha uma noiva antes de ter partido para a guerra. Eu tinha um compromisso. Na guerra, tomamos várias atitudes que não podemos tomar quando tudo se assenta. Eu amo... — John pigarreou — eu amava Linda; tenho certeza de que seria muito feliz com ela, mas eu tinha uma vida aqui. Não era algo para se jogar fora. Sou feliz, Vico, tenho uma esposa maravilhosa, um filho que logo estará na faculdade. Linda também deve ter se casado e tido filhos. Assim é a vida.
— E se vocês se reencontrassem, hoje? — indaguei, ainda comovido com a história de John.
— Isto seria devastador para mim... Talvez... — John hesitava — Tudo pelo que lutei seria posto em cheque. Melhor nem pensar na hipótese. Sou feliz como sou.
Passei a tarde na casa de John, vi retratos de família, conheci seu filho, ele realmente tinha motivos para ser feliz.

Chamei Linda até o escritório.
— Não tenho boas notícias para você, Linda.
Os olhos da enfermeira se encheram d’água.
— Pode falar, detetive, estou preparada... — porém, evidentemente, ela não estava — John está morto, não está?
— E se ele estivesse vivo? — questionei.
— Ele teria me procurado...
— E se ele tivesse mulher e filhos? — insisti.
— Não, ele jamais se casaria com outra mulher! Ele disse que me amava — Linda se desesperava.
Abri a gaveta da minha mesa e meus dedos correram por sobre as duas pastas, uma com o John morto, a outra com o John bem vivo. Apanhei uma delas e entreguei a Linda.
— Sinto muito, John morreu em combate.
Sem nem mesmo ler a ficha, Linda desatou a chorar.
— Obrigada, Vico, aqui está seu dinheiro — ela pôs um envelope sobre a mesa.
— Só mais uma coisa, Linda. No arquivo do Exército, havia uma carta endereçada a você. John não teve tempo para entregá-la, morreu antes, mas é para você.
A carta estava amarelada, amassada e manchada de sangue. O rosto de Linda se iluminou.
— Obrigada! — e, correndo, ela deixou meu escritório.
Quando me encontrei com John, ele mencionou esta carta, estava no bolso da calça que usava ao ser baleado. Implorei para ficar com ela, John titubeou, mas, no fim, confiou em mim. É óbvio que a li, e nela John repetia uma dezena de vezes a importância de haver conhecido Linda, de como a amava e que como haveriam de ser felizes juntos. Seria uma ótima despedida para Linda, quem sabe ela pudesse tocar a vida adiante depois disto.
Espiei pela persiana e vi Linda lá embaixo, na esquina, carta aberta nas mãos, escrita ligeira e miúda, num desamparado choro de alegria.

O ser humano é mesmo um bicho estranho, sempre prefere uma mentira que o faça sonhar.

domingo, 12 de agosto de 2007

O Amante (Conto)

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Vico é contratado para um inusitado caso de traição


Minhas mãos já estavam doloridas de tanto esmurrar aquele viado. Na minha carreira de detetive, já fui contratado para descobrir e fazer muitas coisas, mas nunca, nunca para matar alguém. Tiago, este era o nome do saco-de-pancadas, me implorava para deixá-lo ir.

— Por quê? Por quê?
A razão era simples, a esposa dele havia me procurado, dias atrás, com sérias suspeitas: o marido não parava mais em casa à noite, dizia estar fazendo hora-extra nos finais-de-semana, havia perdido vontade de transar com ela, fundamentada nestes indícios, ela tinha certeza de que Tiago a traía.
Eu a havia alertado que também podia não significar nada, num casamento de dez anos, o relacionamento poderia ter apenas se amornado, mas que investigaria e sanaria as dúvidas dela.
Por uma semana, segui os passos de Tiago, que levava uma vida irrepreensível. Realmente, o que ele dizia ser hora-extra o era de fato, até altas horas ele permanecia no escritório, tentando pôr em dia o serviço atrasado. Eu já estava quase certo de que Tiago era um homem fiel à esposa, até que, no sábado, ele saiu de casa por volta das sete e dirigiu até um bairro de péssima reputação na cidade, reduto de prostitutas e travestis.
Ele estacionou numa alameda escura e desapareceu num bar. Segui-o. Porém, ao invés de encontrá-lo cercado de vagabundas, o bar no qual Tiago havia entrado era ponto de encontro de viados. Ele estava sentado no balcão do bar, aos beijos com um bigodudo. Tive asco, ainda mais quando uma bicha se aproximou, passou a mão na minha bunda e me perguntou:
— Vem sempre aqui, gostosão?
Num reflexo, tirei a mão do baitola de mim, quase esmagando seus dedos:
— Só se for para dar uma surra em afetados como você!
Choramingando, a bicha se desvencilhou de mim e correu para o banheiro do bar. Como a minha reação havia chamado atenção, pensei que seria melhor eu sair dali, antes que Tiago percebesse minha presença.
Aguardei dentro do carro, e, quando Tiago saiu abraçado com o bigodudo, ambos parcialmente bêbados, consegui tirar belos retratos do casalzinho.

Flávia estava inconformada. Uma mulher sempre está preparada para flagrar o marido com uma amante, é da natureza humana trair, instintivo, um resquício do animal irracional que somos. Porém, flagrar o marido com um amante, esta é outra história!
Podem até me acusar de retrógrado, de recalcado, mas a sociedade é que possui e defende tais atributos; é o que chamamos de normalidade. Flávia, a mulher traída, se enfureceu:
— Eu até poderia perdoá-lo, detetive Vico. Nós mulheres somos todo perdão, mas há coisas que não se tem como desculpar. Com outro homem? Você tem certeza disto?
Mas as fotos sobre a mesa respondiam por mim. Flávia mirou-as mais detalhadamente:
— Tem certeza de que não é um amigo dele?
— Isto não posso afirmar, mas, se forem amigos, é uma amizade bastante peculiar, pois eu nunca abracei ou beijei meus amigos antes, nem combino de me encontrar com eles em botecos de viados.

Flávia assinou um cheque e partiu; duas horas depois, o telefone tocou, era ela.
— Vico, você pode vir à minha casa hoje?
Era umas dez da noite quando cheguei lá e fui conduzido até a sala-de-estar.
— Tiago não está em casa, não precisa se preocupar — Flávia me estendeu um drinque.
— E como posso ajudá-la?
— Sabe, detetive, eu tenho me sentido muito sozinha nestas últimas semanas — ela segurou minha mão entre as dela — não é nada fácil para um mulher, cheia de vida, cheia de fogo, viver com um homem que envergonha a raça.
— Eu compreendo — respondi, deslizando a outra mão pela coxa dela. Notando que eu havia fisgado a isca, Flávia se sentou no meu colo, beijou-me, abriu meu zíper e transamos na sala mesmo, pouco nos importando se Tiago chegaria ou não.

Deitados no tapete, nus, Flávia me pediu:
— Tiago é uma desgraça. Mate-o, por favor, Vico. Mate-o.
Não pense que eu sou daquele tipo do otário que se impressiona com facilidade; não é qualquer trepada, nem qualquer boceta que me priva do raciocínio. Eu concordei em matar Tiago, não tanto pelo pedido de Flávia, mas porque a existência dele, as práticas bichescas dele, o comportamento efeminado me enojavam. Talvez, matando-o, eu estivesse contribuindo para tornar o mundo melhor.

Então, numa sexta-feira, eu esperei até que ele saísse do bar, fosse a um motelzinho barato das redondezas, e, no fim da noite, eu o apanhei no beco e o esmurrei até dizer chega. Tiago não tinha idéia porque estava apanhando, não imaginava que Flávia houvesse descoberto sua vida dupla, nem que eu estava ali para dar um fim a sua vida miserável.
Tirei o revólver da cintura e, quando estava para disparar na cabeça dele, refleti: e se eu estivesse errado? E se ele fosse feliz deste jeito, fazendo o que fazia, amando quem amava? Que direito tinha eu de tirar-lhe a vida, eu que sim tenho uma vida desgraçada, na merda, repleta de preconceitos e pindaíbas? E se um dia, quando os ares da mudança chegarem (a mudança sempre vêm, não importa o quanto lutemos contra ela), eu estiver errado e ele estiver certo?
Estes pensamentos bem poderiam ser conseqüência duma piedade que emergiu em mim, ao ver aquele homem, medo no olhar, que só agia como agia porque desejava ser feliz; ou poderia ser também uma profunda reflexão filosófica. Independente do que fosse, fez-me tomar a decisão de deixá-lo viver.
— Não quero vê-lo mais nesta cidade. Vai embora agora, com a roupa do corpo. Se você voltar, eu meto uma bala em sua cabeça.

É claro que eu não faria isto, se eu o havia deixado viver, não mudaria de idéia depois, mas sei como as mulheres são vingativas e Flávia jamais o perdoaria.
Dentro do meu carro, permaneci um tempo a observar as bichas entrando e saindo do bar, riam, estavam felizes, em contraposição a mim, que era homem de verdade, normal, e estava triste.
Qual de nós tinha razão?

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O Covil dos Inocentes - Índice

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(Ilustração por: Henry Alfred Bugalho)

O detetive Vico recebe a visita de uma antiga amante. Ela lhe pede um favor e este insignificante pedido lança Vico numa trama de assassinatos e luta pelo poder.

“O Covil dos Inocentes” é um romance de mistério noir escrito online, um capítulo por semana. Você é convidado a participar, sugerindo os rumos da história e ajudando Vico a desvendar os crimes.

Índice

Capítulo 1
Vico recebe uma visita em seu escritório. Um favor e um mistério a ser desvendado.

Capítulo 2
Vico encontra um cadáver e toma uma decisão.

Capítulo 3
A polícia aparece no escritório de Vico. Acusações e suspeita.

Capítulo 4
Dos que atenderam ao enterro de Silvana.

Capítulo 5
Diálogo com doutor Frischenbauer.

Capítulo 6
Vico entende a estrutura da máfia.

Capítulo 7
Vico cara-a-cara com Don Carregno.

Capítulo 8
Sobre o que Vinny queria resolver com Vico

Capítulo 9
No porto em busca de informações sobre o navio xangaiense

Capítulo 10
Vico no escritório de Liang

Capítulo 11
A luta de Vico contra os chinas

Capítulo 12
Da decisão que Viccenzo tem de tomar

Capítulo 13
Interlúdio amoroso

Capítulo 14
Vico acompanha o descarregamento das mercadorias no porto

Capítulo 15
Carnificina no porto

Capítulo 16
Vico encurralado em seu escritório

Capítulo 17
Sessão de tortura chinesa

Capítulo 18
A polícia num escritório detonado

Capítulo 19
Vico exige explicações dos mafiosos

Capítulo 20
A íntima relação entre Vico e um motor de barco

Capítulo 21
Vico, O Magnífico

Capítulo 22
Rose ampara Vico

Capítulo 23
O constrangimento de Vico e Rose

Capítulo 24
O ataque relâmpago dos chineses

Capítulo 25
O fim duma dinastia

Capítulo 26
Vico no quarto de Silvana

Capítulo 27
O detetive Vico o diário de Silvana

Capítulo 28
Vico no velório do chefão

Capítulo 29
Vico conta a Viccenzo suas conclusões. Primeira parte.

Capítulo 30
A segunda parte das conclusões de Vico. Ele revela quem é o assassino de Silvana.

Capítulo 31
Vico tem cartas na manga. Como ele convence Vinny a deixá-lo vivo.

Capítulo 32
Vico cumpre uma promessa. Final.

Pós-escrito
Explicando o "Teste de Gênero"

Contos do Detetive Vico

O Amante
Vico é contratado para um inusitado caso de traição

A Enfermeira e o Sargento
Vico investiga um amor em tempos de guerra

Amor Fraternal
Uma estranha investigação retorna para assombrar Vico

Roleta-Russa
Vico enfrenta um violento cafetão

Obra do Diabo
Vico desmascara um santo homem

O Inventariante
Vico parte ao encalço dos ladrões de valiosíssimos diamantes

O Diário Vermelho
Um crime contra a liberdade de expressão

O Veterano
Um franco-atirador aterroriza a cidade

A Noite do Predador
Um maníaco sexual faz mais uma vítima

sábado, 28 de julho de 2007

Pós-escrito a "O Covil dos Inocentes"

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Não deve existir nada mais deprimente para um escritor do que ser rotulado: escritor de ficção científica, de livros de fantasia, de romances históricos, contista, ou escritor erótico.

Deprimente por duas razões: primeiro, porque este rótulo obriga o escritor a se repetir, a sempre suprir o mercado e os leitores com o que eles esperam; segundo, porque o verdadeiro escritor é aquele capaz de escrever qualquer gênero, em qualquer forma, sobre qualquer assunto.

O escritor é o senhor de seu mundo. No interior do texto que redige, é ele quem dita as regras e, se por qualquer razão, ele decidir abolir a Lei da Gravidade, imediatamente ela está suspensa. O universo que ele cria na obra literária pode ser um reflexo da sociedade e da realidade, mas também pode prescindir dela, adulterá-la, distorcê-la. Se o escritor é onipotente em se tratando da composição da obra, por que, então, ele é tão dependente quando se trata de se enquadrar num gênero?

Todos escrevemos sobre o que nos agrada, naturalmente, nós nos inclinamos a contar histórias semelhantes àquelas que nos encantaram na infância. Quantos autores de ficção científica não foram seduzidos pelas lutas espaciais de “A Guerra nas Estrelas”, ou se amedrontaram com o alienígena se esgueirando pelos tubos de ventilação em “Alien, o Oitavo Passageiro”, ou não admiraram o mundo decadente e sombrio, povoado de andróides em “Blade Runner”?

Por causa desta influência, parasitaram elementos, possivelmente sem grau algum de originalidade, até que, em algum momento, encontraram sua voz, os temas que lhe interessavam, aquele elemento único, a sua impressão digital literária.

E isto vale para todos os gêneros, para os leitores de Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, de Edgar Allan Poe e Stephen King, de John Grisham, de Balzac ou Proust, de Tolkien ou Rowling, de Tom Clancy.

Sobre um escritor famoso há uma pressão muito maior, ele já possui seu público leitor, já possui um conjunto de obras que definiram sua orientação; porém, que tipo de entrave há para o escritor não-publicado, qual leitor o renegará se ele se contradisser, escrevendo um texto que não condiga com suas obras anteriores?

Nada impede que um escritor experimente, ouse escrever sobre outros assuntos que lhe interessam e, até mesmo, sobre aqueles que não lhe interessam, pelo puro prazer de aperfeiçoar suas habilidades. Nada impede.

Foi esta constatação que me impeliu à dupla experimentação de “O Covil dos Inocentes”; duplo porque eu estaria escrevendo um gênero que não domino, que não costumo ler e do qual só assisti a poucos filmes, e porque eu publicaria este experimento praticamente em tempo real, com o intervalo de apenas poucos dias entre um capítulo e outro, numa espécie de folhetim dos tempos virtuais.

Eu conhecia as dificuldades e tinha plena consciência dos riscos — desistir na metade do projeto, não ter leitor algum, recair em clichês, em diálogos vazios, em estruturas manjadas, maniqueísmo, personagens sem vida —, mas nem por isto pensei que deveria me encolher diante da idéia.

Alguns dos riscos se cumpriram.

Se eu soubesse de antemão como a história se desenrolaria, provavelmente começaria a história de maneira diferente. Quantas vezes não vimos no cinema um filme de detetive começando num escritório, com uma loira vindo contratar seus serviços?

Centenas! Mas esta é a facilidade do clichê, tanto para o autor quanto para o leitor; para o autor porque pode prescindir de criar algo novo, que choque o leitor por sua estranheza; para o leitor porque o arremessa para o interior do enredo, dando-lhe o aval de que aquela história não o desconfortará, de que ele não encontrará surpresas desagradáveis.

Mas apesar de eventuais deslizes, a história prosseguiu e encontrou termo. Minha primeira narrativa longa de Mistério Noir estava concluída.

Mas isto não basta, há tantos gêneros que gosto e que não escrevo, ou que não gosto e, por isto, não escrevo. E se eu também resolvesse escrevê-los, assim como o fiz com “O Covil dos Inocentes”?

Os riscos anteriores permanecem, as chances de sucesso e fracasso são as mesmas.

A este projeto, que levarei adiante em outras obras publicas na Internet, batizei de “Teste de Gênero”. Ficção Científica, Terror, Romance Romântico, Aventura, Fantasia, Comédia... Nos próximos, com maior ou menor competência, tentarei escrever uma obra destes e outros gêneros, e se conseguir um resultado semelhante ao de “O Covil dos Inocentes”, já posso me considerar satisfeito, pelo menos, já estarei livre de ser rotulado.


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